OPINIÃO

“REGRESSÃO”

 
“Que nos interessa descobrir criminosos, quando não podemos levantar-lhe o corpo físico? Em nossa preocupação de punir culpados, sem dar conta de nossas próprias culpas, iremos ao absurdo de desejar ser mais justos que o próprio Deus? (Ester, capítulo 11, Missionários da Luz. Por André Luiz, Espírito a Francisco C. Xavier).


A fim de que possamos tecer alguns comentários, os quais não adentrarão aos aspectos científicos e filosóficos que movem aqueles que se debruçam sob o tema título, também, não levaremos em conta a desculpável busca incessante movida pela curiosidade humana, incluindo-se aí os fenômenos que giram em torno desse assunto.

Não esqueçamos, todavia, que falar em REGRESSÃO é falar em RESPONSABILIDADE. E, afinal, na condição de Espíritos encarnados na Terra, TEMOS A RESPONSABILIDADE NECESSÁRIA PARA ENFRENTAR OS PROBLEMAS ORIUNDOS DA IMERSÃO NO PASSADO?

Na obra Missionários da Luz, capítulo 12, o Benfeitor Alexandre afirma o seguinte: “Elevando-se a alma em cultura e conhecimento, e, consequentemente, em responsabilidade, o processo reencarnacionista individual é mais complexo, fugindo-se à expressão geral, como é lógico.

E, quanto a tais entidades, que diferem em matéria de evolução, da maioria de nós encarnados, prossegue: “[...] são entidades em débito, mas com valores de boa vontade, perseverança e sinceridade, que lhes outorgam o direito de influir sobre os fatores de sua reencarnação, escapando de certo modo, ao padrão geral”.

O leitor amigo dirá que o assunto tratado no capítulo em comento nada tem a ver com o tema central: regressão. Contudo, iniciaremos por tais elucidações do benfeitor, tendo em vista que o mesmo nos esclarece sobre os diferentes Espíritos e graus evolutivos que se encarnam em nosso orbe terrestre, cujos processos reencarnatórios estamos longe de conhecer e dominar.

Insistindo na obra em comento, a certa altura do aprendizado sobre o processo de planejamento de reencarnações executado em um dos departamentos de um dos Ministérios da cidade Espiritual chamada “Nosso Lar”, André Luiz, acompanhado do irmão Manassés, pertencente aos serviços informativos da casa, recebem uma entidade amiga chamada Silvério que, após 15 anos de serviços prestados nas atividades de auxílio, regressaria à esfera carnal para liquidação de determinadas contas. Hesitante, a entidade confessa: “[...] temo contrair novos débitos em vez de pagar os velhos compromissos. É tão penoso vencer na experiência carnal, em vista do esquecimento que sobrevém à encarnação...”.

E a esta dúvida, Manassés responde incontinente: “Seria, porém, muito mais difícil triunfar guardando a lembrança”; Se tivéssemos grandes virtudes e belas realizações, não precisaríamos recapitular as lições já vividas na carne. E se apenas possuímos chagas e desvios para rememorar, abençoemos o olvido que o Senhor nos concede em caráter temporário”.

Prosseguindo, examinando a mesma obra, agora no capítulo 13, a respeito da reencarnação da personagem Segismundo, o orientador espiritual esclarece André Luiz sobre seu organismo perispirítico nestes termos: “[...] tem a mesma identidade essencial; todavia, com o curso do tempo, em vista de nova alimentação e novos hábitos em meio muito diverso, incorporou determinados elementos de nossos círculos de vida, dos quais é necessário se desfaça a fim de poder penetrar, com êxito, a corrente da vida carnal”.

E o esquecimento não é só questão a ser considerada como é verdadeiro recurso do plano espiritual conforme aprendemos com o Espírito Apuleio no capítulo 14, denominado Proteção, na Obra Missionários da Luz, onde o mesmo assevera: [...] Em nossa esfera, a dureza e a ingratidão não podem perseguir o amor puro. Quando as almas reencarnadas se revelam impermeáveis ao reconhecimento e à compreensão, distanciamo-nos delas, naturalmente, ainda mesmo quando encerrem para nós valiosas joias do coração, até que se integrem no conhecimento das Leis de Deus e se disponham a segui-las, em nossa companhia. Quando somos fracos, porém, embora muito amoráveis, e não nos sentimos com a precisa coragem para o afastamento necessário, se merecemos o auxílio de nossos maiores, somos favorecidos com o tratamento magnético que opera em nós o esquecimento passageiro”.

Portanto, mesmo no plano espiritual, a aplicação do tratamento magnético para que se opere o esquecimento é um Recurso colocado por Deus nas mãos da Espiritualidade Superior, a fim de promover o retorno daqueles que se desviaram às Leis Divinas. Neste caso, o esquecimento é necessário para almas reencarnadas impermeáveis à reconhece-las e compreendê-las, como para aqueles que as amam, mas, cujo amor somente auxilia o estacionamento da alma ou provoca dor e sofrimento.

Sendo assim, tratando um pouco a respeito dos benefícios do esquecimento, indagamos se a busca de lembranças do passado, tais como: quem fomos, com quem convivemos, que lugares pertencemos e visitamos, além de outras dúvidas, faria algum bem? Estaria ferindo a Lei Divina? Ou, poderia provocar maior perturbação espiritual ao encarnado curioso?
Socorremo-nos à questão 392 de O Livro dos Espíritos: Por que o Espírito encarnado perde a lembrança do seu passado?
- O homem nem pode nem deve saber tudo; Deus assim o quer, na sua sabedoria. Sem o véu que lhe encobre certas coisas o homem ficaria ofuscado, como aquele que passa sem transição da obscuridade para a luz. Pelo esquecimento do passado ele é mais ele mesmo.

Kardec, não satisfeito, questiona sobre a responsabilidade por atos, bem como resgate de faltas das quais não se pode recordar, tendo em vista a impossibilidade de aproveitamento de experiências anteriormente adquiridas em outras existências e o fato de que cada existência, em razão do esquecimento, será como se fosse a primeira vez, e, termina perguntando como conciliar tudo isto com a justiça de Deus.

Os Espíritos respondem que: “A cada existência o homem tem mais inteligência e pode melhor distinguir o bem e o mal. Onde estaria o seu mérito se ele se recordasse de todo o passado? Quando o Espírito entra na sua vida de origem (a vida espírita) toda a sua vida passada se desenrola diante dele; vê as faltas cometidas e que são causa do seu sofrimento. Bem como aquilo que poderia tê-lo impedido de cometê-las; compreende a justiça da posição que lhe é dada e procura então a existência necessária para reparar a que acaba de escoar-se. Procura provas semelhantes àquelas porque passou, ou as lutas que acredita apropriadas ao seu adiantamento e pede a Espíritos que lhe são superiores para o ajudarem na nova tarefa a empreender, porque sabe que o Espírito que lhe será dado por guia nessa nova existência procurará fazê-lo reparar suas faltas, dando-lhe uma espécie de intuição das que ele cometeu. Essa mesma intuição é o pensamento, o desejo criminoso que frequentemente vos assalta e ao qual resistis instintivamente, atribuindo a vossa resistência, na maioria das vezes, aos princípios que recebestes de vossos pais enquanto é a voz da consciência que vos fala e essa voz é a recordação do passado, voz que vos adverte para não cairdes nas faltas anteriormente cometidas. Nessa nova existência, se o Espírito sofrer as suas provas com coragem e souber resistir, eleva-se a si próprio e ascenderá na hierarquia dos Espíritos, quando voltar para o meio deles”.

Allan Kardec, após a resposta à questão 394 de O Livro dos Espíritos traz uma conclusão belíssima a respeito do tema e nos esclarece:
“A lembrança de nossas individualidades anteriores teria gravíssimos inconvenientes. Poderia, em certos casos, humilhar-nos extraordinariamente; em outros, exaltar o nosso orgulho e por isso mesmo entravar o nosso livre-arbítrio. Deus nos deu, para nos melhorarmos, justamente o que nos é necessário e suficiente: a voz da consciência e nossas tendências instintivas, tirando-nos aquilo que poderia prejudicar-nos. Acrescentemos ainda que, se tivéssemos a lembrança de nossos atos pessoais anteriores, teríamos a dos atos alheios, e esse conhecimento poderia ter os mais desagradáveis efeitos sobre as relações sociais. Não havendo sempre motivo para nos orgulharmos do nosso passado, é quase uma felicidade que um véu seja lançado sobre ele. Isso concorda perfeitamente com a doutrina dos Espíritos sobre os mundos superiores ao nosso. Nesses mundos, onde não reina senão o bem, a lembrança do passado nada tem de penosa; é por isso que neles se recorda com frequência a existência precedente, como nos lembramos do que fizemos na véspera. Quanto à passagem que se possa ter tido por mundos inferiores, a sua lembrança nada mais é, como dissemos, que um sonho mau.

Finalmente, é importante trazer para esse comentário, a resposta dada pelos Espíritos à questão 395 de O Livro dos Espíritos, onde Kardec pergunta se é possível ter algumas revelações sobre as nossas existências anteriores, à qual é a seguinte resposta: “Nem sempre. Muitos sabem, entretanto, o que foram e o que fizeram; se lhes fosse permitido dizê-lo abertamente, fariam singulares revelações sobre o passado”. E prosseguem na questão 396, quanto às vagas lembranças do passado desconhecido: “Algumas vezes é real; mas quase sempre é também uma ilusão, contra a qual se deve precaver, pois pode ser o efeito de uma imaginação superexcitada.

No capítulo 45 do Livro Religião do Espíritos, ditado a Francisco C. Xavier, diz Emmanuel:
Examinando o esquecimento temporário do pretérito, no campo, físico, importa considerar cada existência por estágio de serviço em que a alma readquire, no mundo, o aprendizado que lhe compete. [...] há prostração psíquica nos primeiros sete anos de tenra instrumentação fisiológica dos encarnados, tempo que se lhe reaviva a experiência terrestre. Temos, assim três mil dias de sono induzido ou hipnose terapêutica a estabelecerem enormes alterações nos veículos de exteriorização do Espírito, as quais acrescidas às consequências dos fenômenos naturais de restringimento do corpo espiritual, no refúgio uterino, motivam o entorpecimento das recordações do passado, para que se alivie a mente na direção de novas conquistas. E, como todo esse tempo é ocupado em prover-se a criança de novos conceitos e pensamentos acerca de si própria, é compreensível que toda criatura sobrenade na adolescência, como alguém que fosse longamente hipnotizado para fins edificantes, acordando, gradativamente, na situação transformada em que a vida lhe propõe a continuidade do serviço devido à regeneração ou à evolução clara e simples.

Parece que nosso orientador espiritual vai nos mostrar que a prática da regressão é totalmente desnecessária, tendo em vista que conclui da seguinte maneira:

“E isso, na essência, é o que verdadeiramente acontece, porque, pouco a pouco, o Espírito reencarnado retoma a herança de si mesmo, na estrutura psicológica do destino, reavendo o patrimônio das realizações e das dívidas que acumulou, a se lhe regravarem no ser, em forma de tendências inatas, e reencontrando as pessoas e as circunstâncias, as simpatias e as aversões, as vantagens e as dificuldades, com as quais se ache afinizado ou comprometido. Transfigurou-se, então a ribalta, mas a peça continua. A moldura social ou doméstica, muitas vezes, é diferente, mas, no quadro do trabalho e da luta, a consciência é a mesma, com a obrigação de aprimorar-se, ante a bênção de Deus, para a luz da imortalidade.

Assim sendo, quem de nós está na condição de uma existência corpórea mais elevada, onde o corpo é menos material para que se possa recordar do passado melhor? Quem sabe se a nova existência, em face das melhoras e boas resoluções tomadas no estado errante, não está melhor que as precedentes?

Ao contrário de procurar fazer regressão, não seria mais saudável estudar as próprias tendências para buscar conhecer as faltas cometidas no passado?

Segundo a questão 919 da mesma Obra, os Espíritos nos ensinam que o meio prático mais eficaz para se melhorar nesta vida e resistir ao arrastamento do mal é conhecer-se a si mesmo.

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