ESTUDO DA DOUTRINA ESPÍRITA - O LIVRO DOS ESPÍRITOS – LIVRO PRIMEIRO – III Capítulo – CRIAÇÃO - PARTE 25


IV – CONSIDERAÇÕES E CONCORDÂNCIAS REFERENTES À CRIAÇÃO (Questão: 59)


“Os povos fizeram ideias bastante divergentes sobre a criação, segundo o grau de seus conhecimentos. A razão apoiada na Ciência reconheceu a inverossimilhança de algumas teorias. A que os Espíritos nos oferecem confirma a opinião há muito admitida pelos homens mais esclarecidos”.


Afirmaram os Espíritos Codificadores que entre os textos dos livros sagrados (por exemplo: a Bíblia) NÃO HÁ contradição com a razão apoiada na Ciência. Qualquer contradição é mais aparente que real, disseram. Segundo os Espíritos Superiores ocorreu uma interpolação dada a passagens que, em geral, só possuíam sentido alegórico.

Trazemos para nosso estudo o que se compreende pela expressão interpolação. Em matemática, denomina-se interpolação o método que permite construir um novo conjunto de dados a partir de um conjunto discreto de dados pontuais previamente conhecidos. Em engenharia e ciência, dispõe-se habitualmente de dados pontuais obtidos a partir de uma amostragem ou de um experimento.

Procurando aprender com o ensino dos Espíritos vemos que, ao longo de nossa evolução enquanto sociedade, partiu-se de UM PEQUENO CONJUNTO DE INFORMAÇÕES, UMA PEQUENA AMOSTRAGEM DE DADOS E FORMAMOS UMA OPINIÃO COLETIVA, E, A PARTIR DESTA, APRESENTOU-SE UMA TEORIA GERAL, QUE “EXPLICOU” TUDO, OBRIGANDO-SE À SUA ACEITAÇÃO MESMO DIANTE DAS PRÓPRIAS CONTRADIÇÕES.

Não se considerou, portanto, que o conjunto de informações não abrangia a totalidade da revelação. Que a revelação era apenas a descoberta da expectativa de que haveria um “iceberg” de informações que poderiam ser conhecidas. Além do mais, tais informações vieram na forma de alegorias (uma figura de linguagem, mais especificamente de uso retórico, que produz a virtualização do significado, ou seja, sua expressão transmite um ou mais sentidos além do literal).

Parece que nossas individualidades humanas carecem da paciência, tolerância com a própria ignorância, para absorver lições e ensinamentos. Começamos a visitar uma teoria, uma ciência, um assunto, um tema, e logo em seguida pensamos ser “doutores” no assunto, não havendo nada mais a apreender e mais: que somos os únicos detentores da verdade absoluta. Foi o que ocorreu durante milênios em que se deu mais importância à forma do que ao fundo. O aprendizado, a instrução, eram adquiridos mais pela “intuição” do que pela “comprovação”.

Afirmam os Espíritos que temos que modificar nossas crenças religiosas. Além da compreensão a respeito da questão do primeiro homem, personificado na pessoa de Adão, o movimento da Terra motivou perseguições e atrocidades, e, não obstante, a Terra gira e ninguém pode contestar essa verdade sem ofender a própria razão.

A criação do mundo em seis dias, fixando-a em quatro mil anos antes da era cristã, é negada pela Ciência positiva com base na formação geológica do globo, cujos caracteres indeléveis estão comprovados no mundo fóssil. Todavia, nos avisam os Espíritos: as revelações usaram, frequentemente, linguagem figurada.

O que significa tudo isso então? Que a Bíblia é um erro? Em resposta dizem os Espíritos: Não, os homens se enganaram na sua interpretação!

A Ciência, escavando os arquivos da Terra, descobriu a ordem do surgimento dos diversos seres vivos em sua superfície, o que, de fato, concorda com a Gênese. Todavia, a criação não foi produto de um milagre (algumas horas), mas, resultou de leis naturais, em alguns milhões de anos, de acordo com a vontade de Deus, sem derrogar Suas próprias leis.

Em relação ao dilúvio universal, Allan Kardec “previu” que ao tempo de Noé houve um cataclismo, mas, que pelas informações científicas até o advento da codificação não era possível comprovar a veracidade da informação bíblica, pois, o que se conhecia até então é que houve um cataclismo universal, mas, sem a presença humana. Contudo, para o Codificador, não havia nenhuma prova de que o dilúvio universal de Noé seria o mesmo descoberto pela ciência, uma vez que poderia se tratar da informação de outro evento.

Desta forma, comprovando o bom senso de Allan Kardec, cuja “previsão” dava conta de que a Ciência poderia descobrir, no futuro, traços de outro cataclismo (posterior ao surgimento do homem na Terra), escavações geológicas realizadas por sir Charles L. Woolley, em 1929, ao norte de Bassora, próximo ao Golfo pérsico, para a descoberta de Ur, revelaram que houve uma catástrofe diluviana ocorrida há quatro mil anos antes de Cristo. Mais tarde, outros trabalhos comprovaram que houve um dilúvio local no delta do Tigre e do Eufrates, exatamente como assinalada pela Bíblia.

É sempre importante relembrar que quando os Hebreus emigraram para o Egito, no 18º século, encontraram esse país bastante povoado e bem avançado como civilização. Desta forma, supondo-se que um único homem pudesse povoar imensas regiões, seria necessário também supor que a espécie humana se elevou da ignorância absoluta para o mais alto grau de desenvolvimento intelectual. Tudo isto é contrário a todas leis antropológicas.

Outra questão é a diversidade de raças. O clima e os hábitos podem provocar modificações de características físicas, no entanto, exames fisiológicos provam a existência entre algumas raças de diferenças constitucionais mais profundas que as produzidas pelo clima e hábitos. A ciência prova que o cruzamento de raças produz tipos intermediários, supera caracteres extremos sem, no entanto, cria-los, produzindo apenas variedades dos mesmos. Assim sendo, para que houvesse mistura de raças era necessário que houvesse raças diferentes, o que implicaria na impossibilidade de um tronco comum (Adão).

É impossível pensar que descendentes de Noé deram origem à raça etíope, por exemplo, pois, isso seria uma notável metamorfose. Contudo, se admitirmos a existência da raça humana anterior à época que lhe assinala o texto bíblico será possível compreender a diversidade de raças.

Analisando o texto bíblico como mensagens alegóricas, mas, contendo informações preciosas, pode-se aceitar que Adão, que viveu há seis mil anos, é sim o tronco de uma raça e povoou certa região ainda não habitada. O dilúvio de Noé teria sido uma catástrofe parcial e não “universal”. O texto, portanto, estaria em conformidade com o estilo peculiar oriental, como é possível encontrar nos livros sagrados de todos os povos.

Como adverte Kardec, a respeito do texto bíblico, “é prudente não se acusar muito ligeiramente de falsas, as doutrinas que podem, cedo ou tarde, como tantas outras, oferecer um desmentido aos que as combatem. As ideias religiosas, longe de perder se engrandecem, ao marchar com a Ciência; esse o único meio de não apresentarem ao ceticismo um lado vulnerável”.

Mais tarde Kardec vai propor o item 8, ALIANÇA DA CIÊNCIA COM A RELIGIÃO, no Evangelho Segundo o Espiritismo, onde vai esclarecer:

“A Ciência e a Religião são duas alavancas da inteligência humana, uma revela as leis do mundo material, e a outra as leis do mundo moral. Mas aquelas e estas leis, tendo o mesmo princípio, que é Deus, NÃO PODEM CONTRADIZER-SE. [...]. A incompatibilidade, que se acredita existir entre essas duas ordens de ideia, provém de uma falha de observação, e do excesso de exclusivismo de uma e de outra parte. Disso resulta um conflito, que originou a incredulidade e a intolerância”.

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