ESTUDO DA DOUTRINA ESPÍRITA - O LIVRO DOS ESPÍRITOS LIVRO SEGUNDO – PARTE 47

MUNDO ESPÍRITA OU DOS ESPÍRITOS - CAPÍTULO IV – PLURALIDADE DAS EXISTÊNCIAS
VI – SEXO NOS ESPÍRITOS (Questões: 200 a 202)

Iniciando nossa reflexão, podemos perceber, JÁ NO TÍTULO, que o Codificador Allan Kardec quando nos introduz no tema, anuncia: SEXO NOS ESPÍRITOS.     Portanto, trata-se de indicação da maior importância, tendo em vista que o Mestre de Lyon (usando a expressão em francês) não utilizou o termo: Sexo DOS Espíritos.[1]

Antes, é necessário esclarecer ao leitor a diferença entre SEXO e GÊNERO, sem o que podemos confundir a mensagem do texto codificado. Importa saber que sexo e gênero possuem diferenças fundamentais. O primeiro, do ponto do vista biológico, diz respeito a feminino masculino, isto é, apresenta a categoria biológica. Gênero, por sua vez, diz respeito aos papeis sociais, uma distinção sociológica entre homem mulheros quais mudam no espaço e no tempo, tendo em vista que diferenças são construídas ou descontruídas a fim de atingir a igualdade social.

Passemos, então, à análise da PREPOSIÇÃO usada pelo Codificador. Lembrando que preposição pode se referir ao tempo e ao espaço, além de estabelecer relações diversas, tais como:
                 1.       Autoria (Este quadro de Picasso é lindo);
                 2.      Especialidade (Ele é perito em aviação);
                 3.      Lugar (Eles estiveram em Uberaba);
                 4.      Origem (Este pacote veio de Uberlândia);
                 5.      Posse (Estes discos são dos meus tios);
                 6.      Tempo (Ela chegará em quinze minutos).

Eliminamos, para argumentar, os números 1,2 e 6, face as relações que estabelecem. Restam os números 3,4 e 5. Vimos que Kardec não usou a preposição que indicaria posse (número 5). Finalmente, temos os números 3 e 4, que se referem à lugar e origem. Vejamos.

Na questão 200, o Codificador pergunta: Os Espíritos têm sexo? Em português ter é um verbo transitivo direto que indica posse, propriedade, gozo ou usufruto. Neste caso, percebemos que, conforme o título e a pergunta, Allan Kardec primeiro busca eliminar o sentido de posse. Assimilemos a resposta dos Espíritos Codificadores:
-­ Não como entendeis, porque os sexos dependem da constituição orgânica. Há entre eles amor e simpatia*, mas, baseados na afinidade de sentimentos.
(*nós não entendemos o que é amor e simpatia...).

Assim sendo, aprendemos que os Espíritos ensinaram que o sexo é analisado pelo ponto de vista biológico, orgânico e se trata de uma apresentação morfológica do corpo humano (podemos, até, compreender que os Espíritos Superiores não disseram que os Espíritos não possuem sexo, afirmaram, todavia, que não temos condições de compreender: não como entendeis...).

Na questão 201, onde o questionamento refere-se à possibilidade do Espírito que animou o corpo de um homem poder animar o corpo de uma mulher, numa nova existência e vice-versa, o Codificador ainda está analisando a questão pelo ponto de vista biológico (corpo de homem / corpo de mulher). Assim, aqui se considera a apresentação morfológica do corpo físico, naquilo que define o feminino e o masculino (leia o texto de Emmanuel abaixo).

Por fim, na questão 202, o assunto tratará da preferência reencarnatória (no corpo de homem ou no corpo de mulher?). E estamos pensando que alcança, inclusive, a questão do livre-arbítrio*, tendo em vista que o próprio Codificador comenta que “cada posição social, oferece-lhes provas e deveres especiais, e novas ocasiões de adquirir experiências. Aquele que fosse sempre homem, só saberia o que sabem os homens”.
(**Ora, a escolha morfológica resta relativizada neste tocante.)

Veja que conforme nossa explicação introdutória, neste tópico parece que o Codificador está equivocando-se com aspectos biológicos e sociais. Porém, nada é o que parece!

É preciso remontar aos séculos 18 e 19, pelo menos, para reconhecermos como a mulher era tratada pela sociedade. Era função de a Igreja castrar a sexualidade feminina, usando como contraponto a ideia do homem superior ao qual cabia o exercício da autoridade. Todas as mulheres carregavam o peso do pecado original e, desta forma, deveriam ser vigiadas de perto e por toda a vida. Até o século XVII só se reconhecia o modelo de sexo masculino. A mulher era concebida como um homem invertido e inferior, desta forma, entendida como um sujeito menos desenvolvido na escala da perfeição metafísica. No século XIX a mulher passa para o lugar de “inverso do homem ou sua forma complementar”. Basta ler livros acadêmicos do período para encontrar referência a “homem” quando se queria dizer “ser humano”.

Na verdade, ao tempo da Codificação, ser “mulher” era a um só tempo referir-se ao feminino do ponto de vista biológico e, também, uma posição social, portanto, faz sentido Allan Kardec dizer que “encarnar-se homens ou mulheres” seria oportunidade para experimentar uma posição social para progredir e adquirir novas experiências.

É também importante compreender que a morfologia (ou categoria) do ponto de vista biológico indicaria, também, a distinção sociológica entre homem e mulher, conforme depreendemos do ensino dos Espíritos.

É natural este tema trazer muitas indagações e suscitar diversas controvérsias, mas, pensamos que Emmanuel nos trouxe, em 07/08/1959, uma bela página para reflexão quando comentou a questão 201:

“[...] Quase sempre, os que chegam ao além-túmulo sexualmente depravados, depois de longas perturbações, renascem no mundo, tolerando moléstias insidiosas, quando não se corporificam em desesperadora condição inversiva, amargando pesadas provas como consequências dos excessos delituosos a que se renderam. À maneira de doentes difíceis, no leito de contenção, padecem inibições obscuras ou envergam sinais morfológicos em desacordo com as tendências masculinas ou femininas em que ainda estagiam no elevado tentame de obstar a própria queda em novos desmandos sentimentais”.
[2]

Terminamos nossa reflexão sem buscar comentar o fragmento do texto escrito. Acreditamos que a mensagem fala por si mesma. Todavia, para extirpar quaisquer dúvidas acerca da condição inversiva, as palavras seguir são esclarecedoras (ouvidos de ouvir e olhos de ver):

"Tendo Neves formulado consulta sobre os homossexuais, Felix demonstrou que inúmeros Espíritos reencarnam em condições inversivas, seja no domínio de lides expiatórias ou em obediência a tarefas específicas, que exigem duras disciplinas por parte daqueles que as solicitam ou que as aceitam. Referiu ainda que homens e mulheres podem nascer homossexuais ou intersexos, como são suscetíveis de retomar o veículo físico na condição de mutilados ou inibidos em certos campos de manifestação, aditando que a alma reencarna, nessa ou naquela circunstância, para melhorar e aperfeiçoar-se, e nunca sob a destinação do mal, o que nos constrange a reconhecer que os delitos, sejam quais sejam, em quaisquer posições, correm por nossa conta".
[3]




[1] Informamos que nossa opinião esposada aqui usa como instrumento para pesquisa a 70ª Edição (Fev./2013) da Obra O Livro dos Espíritos, traduzida da língua francesa para a língua portuguesa por José Herculano Pires.
[2] XAVIER, Francisco C. Religião dos Espíritos. Espírito Emmanuel. Capítulo 53. Título: sexo e amor (FEB, 2014).
[3] XAVIER, Francisco C. Sexo e Destino. Espírito André Luiz. Capítulo 9. Pg. 280. (FEB, 2013).

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