ESTUDO DA DOUTRINA ESPÍRITA - PARTE 4

IV – MANIFESTAÇÕES INTELIGENTES

Kardec confessa, para surpresa de muitos, que “acreditou-se haver descoberto, não sabemos por iniciativa de quem, que o impulso dado aos objetos não era somente o produto de uma força mecânica cega, mas que havia nesse movimento a intervenção de uma causa inteligente”[1]. 

Mais importante do que a descoberta é a humildade do Codificador em não trazer para si louros de algo que não lhe pertencia. Notaremos que ao discorrer sobre a revelação espírita Kardec vai esclarecer que não adotar a posição de “profeta” deve-se ao fato de que toda a Doutrina Espírita é uma revelação coletiva dos Espíritos sob a égide do Espírito da Verdade.

E, por falar em revelação, Allan Kardec percebe que esta via, uma vez aberta, oferecia um campo inteiramente novo de observações; era o véu que se levantava sobre muitos mistérios[2]. E, como um grande mestre, educador por excelência e pesquisador por natureza, passa a indagar formulando questões, tais como[3]:

a)   Mas haverá realmente neste caso uma potência inteligente?
b)     Se essa potência existe, o que é ela, qual a sua natureza, a sua origem?
c)      Ela é superior à Humanidade?

Afastando o místico e o maravilhoso, o Codificador elabora suas premissas dotadas de racionalidade e lógica que semelhante àquela Aristotélica (premissa maior, premissa menor e conclusão), na verdade demonstra a influência da Lógica Cartesiana, representante de um movimento intelectual dos séculos XVII e XVIII que enfatiza o uso da razão para desenvolver as ciências naturais.

Segundo Descartes, a razão é a única via segura pela qual o conhecimento do mundo pode ser obtido, possibilitando alcançar uma verdade absoluta, incontestável. De acordo com o pensamento cartesiano, era necessário primeiramente duvidar de todo conhecimento acumulado anteriormente sobre um assunto e, passado esse momento, era necessário que a experimentação e a observação fossem realizadas para a abertura de novos caminhos que pudessem explicar melhor aquilo que foi estudado. As novas conclusões elaboradas deveriam, dessa maneira, compor um conjunto de leis que pudessem esgotar todos os aspectos que se relacionam com a compreensão do objeto. À medida que se mostrassem eficazes, essas leis comprovariam a tese elaborada por um estudioso. De acordo com SOUSA, esse caminho é constituído pela dúvida, a experimentação e a formulação de leis[4].

Conforme escrevemos em outra postagem, as primeiras manifestações inteligentes verificaram-se por meio de mesas que se moviam e davam determinados golpes, batendo um pé, e assim respondiam, segundo o que se havia convencionado por “sim” ou por “não”. Nada disso era seguramente convincente, tendo em vistas que alguns atribuíam esses efeitos ao acaso.

O processo passou ao uso de letras do alfabeto aliadas a comandos previamente combinados cujas respostas provocavam admiração dado à correspondência e justeza das questões propostas. O “ser misterioso” interpelado quanto à sua natureza declarou, então, que era um Espírito, deu seu nome e forneceu diversas informações a seu respeito. Note que a palavra Espírito foi revelada pelo interpelado, vez que ninguém havia pensado em espíritos como meio de explicar os fenômenos. Como afirma Kardec: “foi o próprio fenômeno que revelou a palavra”[5]. 

Realmente tratavam-se de manifestações inteligentes. Visto o incômodo causado pelo método de batidas e formação de letras, que se revelava demorado, o Espírito então sugere a adaptação de um lápis a uma cesta ou outro objeto que, posta sobre uma folha de papel seria movimentada por aquela potência oculta que fazia girar as mesas.

Quais eram os temas tratados? Discursos, frases, palavras, diversas páginas tratando sobre altas questões de Filosofia, Moral, Metafísica, Psicologia, etc. Com tanta ou maior rapidez que a mão humana. Interessante ressaltar que o conselho para o uso da cesta com lápis foi dado simultaneamente na América, na França e em diversos países, sendo que em Paris ocorreu no dia 10/06/1853, conforme nos relata Allan Kardec[6].

Ressalte-se que o movimento do objeto ocorre sob a influência de certas pessoas, dotadas para isso de uma faculdade especial, designadas pelo nome de médiuns, os quais exercem o papel de intermediários entre o Espíritos (mundo espiritual) e os humanos (mundo material). As condições destas faculdades estão ligadas a causas ao mesmo tempo físicas e espirituais, ainda imperfeitamente conhecidas, uma vez que podem se desenvolver pelo exercício, encontrando-se médiuns de todas as idades, ambos os sexos e em todos os graus de desenvolvimento intelectual[7]. 

AOS CONTRADITORES DO TÍTULO “MANIFESTAÇÕES INTELIGENTES” 

Em “O Livro dos Espíritos”, Kardec dá esse título a um dos tópicos em que faz a exposição da obra. Contudo, quando o leitor desatento percebe que o tema alude apenas a mesas fazendo barulho com pancadas de seus pés ou cesta com lápis adaptado questionará onde está a inteligência da manifestação. Mais que o meio utilizado pelo comunicante, a inteligência está por trás da manifestação.

Da mesma forma, ao associar a lógica do Codificador àquela de Descartes, o mesmo leitor tecerá longas críticas tendo em vista sua análise apenas superficial e rasa. Ora, como reconhece Emmanuel “o cérebro é o aparelho da razão” e a simples circunstância da morte física não eleva o homem aos domínios angélicos, uma vez que permanece diante da própria consciência, lutando por iluminar o raciocínio[8].

Afirmamos com toda a certeza de que se tratavam e se tratam de manifestações inteligentes. O que não é nada inteligente é a atitude do homem vulgar que costuma “estimar as expectativas ansiosas à espera de acontecimentos espetaculares, esquecido de que a Natureza não se perturba para satisfazer a pontos de vista da criatura. A morte física não é salto do desequilíbrio, é passo da evolução simplesmente[9]. 

Usando de um recurso largamente difundido no Antigo e no Novo Testamento o benfeitor espiritual compara a morte física a um chimpanzé levado a residir em um palácio e pudesse escrever aos seus irmãos em fase evolucionária. À maneira do macaco, que encontra no ambiente humano uma vida animal enobrecida, o homem que, após a morte física mereceu o ingresso nos círculos elevados do Invisível encontra uma vida humana sublimada[10].

Os recursos da manifestação inteligente daquela época eram aqueles já expostos nesse trabalho. E se alguém quer se opor ao uso pelos Espíritos das “pancadas” para sua comunicação, devem criticar, também, o Código Morse.
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[1] KARDEC, Allan. O LIVRO DOS ESPÍRITOS. São Paulo: LAKE, 2013, pag. 30. 
[2] KARDEC, Allan. O LIVRO DOS ESPÍRITOS. São Paulo: LAKE, 2013, pag. 30. 
[3] KARDEC, Allan. O LIVRO DOS ESPÍRITOS. São Paulo: LAKE, 2013, pag. 30. 
[4] SOUSA, Rainer, Graduado em História, Equipe Brasil Escola http://brasilescola.uol.com.br/historiag/a-razao-cartesiana.htm acesso em 17.10.2016 as 11h49min. 
[5] KARDEC, Allan. O LIVRO DOS ESPÍRITOS. São Paulo: LAKE, 2013, pag. 30. 
[6] KARDEC, Allan. O LIVRO DOS ESPÍRITOS. São Paulo: LAKE, 2013, pag. 31. 
[7] KARDEC, Allan. O LIVRO DOS ESPÍRITOS. São Paulo: LAKE, 2013, pag. 31. 
[8] XAVIER, Francisco C. OS MENSAGEIROS. Brasília: FEB, 2013, prefácio. 
[9] XAVIER, Francisco C. OS MENSAGEIROS. Brasília: FEB, 2013, prefácio. 
[10] XAVIER, Francisco C. OS MENSAGEIROS. Brasília: FEB, 2013, prefácio.

ESTUDO DA DOUTRINA ESPÍRITA - PARTE 3

III – A DOUTRINA E SEUS CONTRADITORES [1]

As contradições apontadas para a Doutrina Espírita, decorrentes de uma observação incompleta dos fatos e de um julgamento formado com muita ligeireza e precipitação, foram:

Movimento das mesas ou “fenômeno das mesas girantes”

Fato cuja repetição foi observada primeiramente na América (eis que a História prova que o mesmo remonta à mais alta Antiguidade[2]) produziu-se acompanhando de ruídos solitários, golpes desferidos sem causa aparentemente conhecida e provocou muita incredulidade, o que foi superado pela multiplicidade das experiências. Todavia, em razão de que os fenômenos não estavam sujeitos à vontade e expectativa de serem produzidos constantemente, muitos concluíram pela negativa. Mas, as mesas continuaram a se mover.

Tais fenômenos, assim como aqueles da química e da eletricidade, estão subordinados a determinadas condições e não se produzem fora delas. Fatos novos podem e devem exigir novas leis. Para conhece-las é necessário estudar as circunstâncias em que os fatos se produzem. Tal estudo é realizado por meio de observação perseverante, atenta e bastante prolongada.

Fraudes

Pode-se muito bem brincar um instante, mas, indefinidamente torna-se devastador e cansativa para o mistificador como para o mistificado. Seria o caso, então, de algo que se propaga como fraude em todo o mundo, entre pessoas sérias, veneráveis e esclarecidas, o que seria tão extraordinário como o próprio fenômeno.

CARACTERES DA DOUTRINA ESPÍRITA E DO "ESPÍRITA", SEGUNDO EMMANUEL [3]

Características gerais

A Doutrina Espírita exige fidelidade, explica os fenômenos mediúnicos em que toda religião se baseia, é guia na solução dos problemas do destino e da dor e exonera do pavor ilusório do inferno que persiste somente na consciência culpada.

O Espiritismo descerra a continuidade da vida após a morte, estabelece a caridade incondicional como simples dever e abraça os Espíritos infelizes, vendo neles criaturas humanas desencarnadas em outras faixas de evolução.

A Religião dos Espíritos permite-se o livre exame com sentimento livre de compressões dogmáticas, para que a fé contemple a razão face a face, elucidando a todos sobre a colheita da plantação que tenhamos lançado à vida, sem qualquer privilégio na Justiça Divina, oferecendo a chave para a verdadeira interpretação do Evangelho.

Aviso do benfeitor espiritual

Porque a Doutrina Espírita é em si a liberalidade e o entendimento, há quem julgue seja ela obrigada a misturar-se com todas as aventuras marginais e com todos os exotismos, sob pena de fugir aos impositivos da fraternidade que veicula. Dignifica, assim, a Doutrina que te consola e liberta, vigiando-lhe a pureza e a simplicidade, para que não colabores, sem perceber, nos vícios da ignorância e nos crimes do pensamento.

“Espírita” deve ser o teu caráter, mesmo que te sintas em reajuste depois da queda. “Espírita” deve ser a tua conduta, mesmo que estejas em duras experiências. “Espírita” deve ser o nome do teu nome, mesmo que respires em aflitivos combates consigo mesmo. “Espírita deve ser o claro adjetivo de tua instituição, mesmo que, por isso, te faltem as passageiras subvenções e honrarias terrestres. DOUTRINA ESPÍRITA QUER DIZER DOUTRINA DO CRISTO. E a Doutrina do Cristo é a doutrina do aperfeiçoamento moral em todos os mundos. Guarda-a, pois, na existência como sendo a tua responsabilidade mais alta, porque dia virá em que serás naturalmente convidado a prestar-lhe contas.[4]

Comentário 

Basta um pequeno "olhar" ao redor que vamos nos deparar com os contraditores da doutrina espírita. Dentro desta então, basta pequena observação. A contradição pode estar sentada ao seu lado!

Sem nenhuma vocação para a crítica infundada à crença alheia, é necessário esclarecer que muitos "espíritas" creem em imagens de barro, veneram retratos, atribuem qualquer tipo de "força sobrenatural" a objetos, muitos acreditando nos denominados "feitiços".

É bom que fique claro: CADA UM ACREDITA NO QUE QUISER. O problema é que o indivíduo passa a "enxertar" no Espiritismo uma série de "sistemas" que não passam no exame mais superficial da Codificação.

Muito se poderia argumentar sobre o tema, por diversos ângulos de abordagem inclusive, mas, é sempre melhor ouvir os ensinamentos dos irmãos mais velhos, assim, com a palavra Emmanuel [5]:

"Muitos discípulos, nas várias escolas cristãs, entregaram-se a perquirições teológicas, transformando os ensinos do Senhor em relíquia morta dos altares de pedra; no entanto, espera o Cristo venhamos todos a converter-lhe o Evangelho de amor e sabedoria em companheiro da prece, em livro escolar no aprendizado de cada dia, em fonte inspiradora de nossas mais humildes ações no trabalho comum e em código de boas maneiras no intercâmbio fraternal.  [...] sabemos que o labor do aprendiz fiel constitui-se de adoração e trabalho, de oração e esforço próprio".

Certamente importa lembrar o diálogo de Jesus com a Mulher Samaritana onde Ele a ensina que a verdadeira adoração a Deus é em Espírito e em Verdade. Sabendo, ainda, como ensinaram o Apóstolo Paulo, Estevão e o Profeta Isaias: Deus não habita em templos de pedra.

[1] KARDEC, Allan. O LIVRO DOS ESPÍRITOS. Trad. J. Herculano Pires. São Paulo: LAKE, 2013, pg. 27.
[2] XAVIER, Francisco C. RELIGIÃO DOS ESPÍRITOS. Pelo Espírito Emmanuel. Brasília-DF: FEB, 2015, pag. 151-153.
[3] XAVIER, Francisco C. RELIGIÃO DOS ESPÍRITOS. Pelo Espírito Emmanuel. Brasília-DF: FEB, 2015, pag. 233-236.
[4] XAVIER, Francisco C. RELIGIÃO DOS ESPÍRITOS. Pelo Espírito Emmanuel. Brasília-DF: FEB, 2015, pag. 235-236.

ESTUDO DA DOUTRINA ESPÍRITA - PARTE 2

II – ALMA, PRINCÍPIO VITAL E FLUÍDO VITAL

Outra palavra que mereceu especial destaque por Kardec foi ALMA. Essa palavra sempre foi motivo para diversas opiniões. A lexicografia lhe atribuiu uma variedade de sentidos de acordo com cada contexto em que foi inserida. Na prática, isto demonstrou a imperfeição da língua. Se cada ideia fosse representada por um termo apropriado muitas discussões seriam evitadas. 

A dificuldade de entendimento ocorre em razão da inexistência de uma palavra para se referir a cada coisa, ou seja, UMA PALAVRA pode e é comum significar várias coisas. Para uns ALMA seria o princípio da vida orgânica. Para outros, princípio da inteligência, agente universal que cada ser absorve uma porção. Segundo outros, alma seria um ser moral, independente da matéria, que conserva sua individualidade após a morte

Conforme Kardec, sem adentrar ao mérito de cada opinião, considerando o lado puramente linguístico, as três aplicações da palavra constituem três ideias diferentes, mas, de acordo com o ponto de vista que aborda, tem razão ao lhe dar uma definição.

Contudo, para evitar confusões, é necessário convergir para uma só significação, fruto de simples escolha. A Doutrina Espírita preferiu ficar com o significado mais comum da palavra, definindo que ALMA se refere ao ser imaterial e individual que existe em nós e sobrevive ao corpo. 

Para as demais ideias, a Doutrina Espírita conceituou:

PRINCÍPIO VITAL: princípio da vida material e orgânica, seja qual for a sua fonte, que é comum a todos os seres vivos, desde as plantas ao homem; A vida existe sem a faculdade de pensar; Uma propriedade da matéria, efeito que se produz quando esta se encontra em determinadas circunstâncias; Ou fluído especial, universalmente espalhado, do qual cada ser absorve e assimila uma parte durante a vida, qual os corpos inertes absorvem a luz; Seria o fluído vital, tal como o elétrico animalizado, designado por fluído magnético ou nervoso, etc.

PRINCÍPIO INTELIGENTE: a definição deste princípio encontra-se na questão 23 de "O Livro dos Espíritos" (1), cuja pergunta "Que é Espírito?" traz a seguinte resposta: Princípio inteligente do Universo.

Ao estudar a Codificação Espírita será comum verificar o uso das expressões Espírito e Alma como sinônimos e significando: "ser imaterial que existe em nós e sobrevive ao corpo".

Conforme "O Livro dos Espíritos" uma complexidade que envolve nossos sentidos materiais porque não fomos organizados para perceber o espírito sem matéria. Por isso, enquanto encarnados a inteligência, atributo essencial do espírito, os quais confundem-se num princípio comum, para nós, são uma e a mesma coisa (questão 24).

Na Primeira Parte do Livro dos Médiuns, Capítulo I, denominado Noções Preliminares, respondendo a questão: Existem Espíritos? a certa altura o Codificador afirma: "Seja qual for a ideia que se faça dos Espíritos, a crença na sua existência decorre necessariamente do fato de haver um princípio inteligente no Universo, além da matéria. Essa crença é incompatível com a negação absoluta do referido princípio. Partimos, pois, da aceitação da existência, sobrevivência e individualidade da alma, de que o Espiritualismo em geral nos oferece a demonstração teórica dogmática, e o Espiritismo a demonstração experimental" (2). 

Allan Kardec sugeriu, para evitar confusão, o emprego da palavra alma para as ideias acima apresentadas, desde que junto à mesma viesse um qualificativo especificando seu significado, tais como: 
- Alma vital – para designar o princípio da vida material (comum a todos os seres orgânicos); 
- Alma intelectual – para o princípio da inteligência (comum para animais e homem); e, 
- Alma espírita – para o princípio da nossa individualidade após a morte (pertencente somente ao homem).

1. KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Trad. J. Herculano Pires. São Paulo: LAKE, 2013.
2. KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. Trad. J. Herculano Pires. São Paulo: LAKE, 2013.

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