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quinta-feira, 13 de janeiro de 2022

OBJETO E CONTEÚDO DA OBRA O CÉU E O INFERNO DE ALLAN KARDEC

Segundo Allan Kardec, o leitor da obra O Céu e Inferno irá encontrar no seu título o objeto que será estudado. Apelidamos o livro de O céu e o Inferno, mas, em verdade, o seu título é um pouco mais extenso. Denomina-se: O céu e o inferno - a justiça divina segundo o espiritismo.

De partida observamos que a proposta é demonstrar o que acontece com o ser humano após a morte. A grande indagação (é o fim de tudo?) é racionalmente respondida juntamente com outras questões tanto quanto importantes.

A justiça de Deus é o lastro. Será que Deus e sua jutiça é o mesmo apresentado pelas religiões?

Veremos que NÃO. Coube ao Espiritismo explicar a Justiça Divina de uma maneira COMPLETAMENTE DIFERENTE.

E seu autor adverte que o conteúdo da obra não  é fruto de concepções pessoais, nem um sistema preconcebido. Em boa linguagem, a obra não usará qualquer artimanha para forçar a aceitação de quaisquer ideias, frutos de cognições "a priori".

A autoridade do conteúdo emana do fato que tudo foi deduzido da observação e da concordância dos fatos. Nesse caso, importa salientar que dedução, observação e concordância dos fatos, são métodos científicos amplamente válidos no século 19.

Na apresentação que faz da sua obra, Allan Kardec trará esclarecimentos muito importantes, pois, irá demonstrar a hierarquia entre as obras que escreveu.

1. O Livro dos Espíritos: traz as bases fundamentais. Sustenta todo o conjunto. Traz a Doutrina Espírita e contém todos os princípios doutrinários, inclusive os que vão coroar o edifício espírita. É o ponto de partida e de chegada para os estudantes sérios do Espiritismo.

2. O Livro dos Médiuns e O Evangelho Segundo o Espiritismo: apresentam pontos de vistas específicos, mas são desdobramentos de O Livro dos Espíritos. Constituem a ciência e a filosofia do Espiritismo.

O primeiro trata da comunicabilidade entre os Espíritos, os fenômenos e a ciência dos Espíritos Superiores; o segundo, investiga a Doutrina Moral conforme definida pelo Espiritismo na questão 629 e seguintes de O Livro dos Espíritos.

3. O céu e o inferno - a justiça divina segundo o Espiritismo: é outro desdobramento de O Livro dos Espíritos e traz pontos de vistas específicos sobre a Doutrina dos Espíritos. É, ao mesmo tempo, ciência e filosofia.

Importa destacar que, ao demonstrar todos esses nuances, Allan Kardec está reproduzindo as definições contidas em O Que é o Espiritismo, pois, como já sabemos o Espíritismo é, ao mesmo tempo, uma ciência da observação e uma doutrina filosófica. Como ciência prática, consiste nas relações que se podem estabelecer com os Espíritos; Como filosofia, compreende todas as consequência morais que decorrem dessas relações.

Nesse diapasão resumiu que o Espíritismo é uma ciência que trata da natureza, da origem e do destino dos Espíritos e de suas relações com o mundo corporal.

E é exatamente isto que encontramos nessas obras mencionadas pelo codificador, pois, a moral espírita (LE, 629) é maneira como cada um deve se portar segundo o modelo ofertado por Deus (LE, 625), cuja doutrina moral é estudada pelo Espiritismo (O Evangelho Segundo o Espiritismo).

As relações entre os Espíritos cientificamente explicadas pelos Espíritos Superiores (Livro dos Espíritos) são minuciosamente estudadas em O Livro dos Médiuns, inclusive no próprio livro O Céu e o Inferno - a Justiça Divina Segundo o Espiritismo

A natureza e origem dos Espíritos, conforme explicadas em O Livro dos Espíritos, que evoluem numa constante e perpétua relação mútua (Livro dos Médiuns), segundo sua conduta moral (Evangelho Segundo o Espiritismo) vão redundar no destino criado por cada individualidade (felicidade ou infelicidade).

Esse destino, o estado feliz ou infeliz, entre outras questões, são examinados do ponto de vista doutrinário e com a apresentação de exemplos da variedade de Espíritos segundo sua posição na escala espiritual em O Céu e o Inferno - a Justiça Divina Segundo o Espiritismo.

É a conduta moral dos Espíritos, nos planos individual e coletivo, em meio às suas relações, que produzem as consequências boas ou más. Tudo balizado pela escolha individual (autonomia e livre-arbítrio).

De fato, a obra vai demonstrar isso, o resultado das escolhas que fazemos nas relações que mantemos uns com os outros. O sofrimento moral dos Espíritos, como também as conquistas no processo evolutivo.

Uberaba-MG, 13/01/2021
Beto Ramos


FONTE BIBLIOGRÁFICA:

KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno - a jutiça divina segundo o Espiritismo. Prefácio da Obra. Guarulhos-SP: FEAL, 2021.
KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. São Paulo: LAKE, 2013.
KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. São Paulo: LAKE, 2013.
KARDEC, Allan. O Evangelho Segundo o Espiritismo. São Paulo: LAKE, 2013.



TEORIA DE RIVAIL SOBRE VÍCIOS INATOS DA CRIANÇA

 

As observações de Rivail demonstravam que havia crianças nascidas em ótimos berços, mas que eram acompanhadas de funestas disposições. Sendo assim, haveria disposições verdadeiramente inatas, tais como:

  • Temperamento;
  • Vivacidade;
  • Lentidão;
  • Cólera;
  • Sangue-frio;
  • Agilidade;
  • Profundidade das ideias.

Força e fraqueza seria relacionadas à constituição, nascendo-se dessa ou daquela maneira. No tempo de Rivail pensava-se que a origem destas disposições estariam relacionadas com a influência do clima sobre a mãe antes do nascimento da criança, o que poderia influir nas disposições físicas e morais.

Rivail não concordava com a teoria dos vícios inatos. Pensava que tudo não passava de influência do meio, o que poderia ser alterado pela boa educação. A moral, portanto, deveria ser ensinada na infância, não na mocidade, quando muitas paixões já haviam criado raízes. 

Assim, desenvolve a teoria de que, tal como o clima físico (atmosfera), o clima moral em que uma criança é influenciada, exerce maior ou menor efeito (vício) na criança devido ao seu temperamento (inclinação).

Para Rivail, o ser humano não nasce virtuoso, nem vicioso, porém, mais ou menos disposto a receber e a conservar as impressões próprias. São essas últimas que desenvolvem vícios e virtudes. Na Revista Espírita, falando sobre Gail na Frenologia, Kardec abordará esses pontos, mas com o conhecimento do princípio espírita da reencarnação.

Quanto aos vícios e virtudes, a essência do pensamento de Rivail será validada para o Espírito criado simples e ignorante, com nulidade moral e sem qualquer conhecimento, portanto, sem vício ou virtude. Ao longo das sucessivas reencarnações vai recebendo impressões, conhecendo, formando o seu caráter, habituando-se a vícios, despojando-se e adquirindo virtudes.

Interessante notar que diante da indagação sobre a causa primeira das qualidades morais, se inatas ou adquiridas, Rivail dirá que cada um poderá ter sua opinião sobre esse assunto. Não se nega, contudo, que o segredo da verdadeira educação moral é cercar a criança desde seu nascimento, de impressões salutares para seu espírito e o seu coração, evitando as prejudiciais. E esse é o papel da educação por meio dos educadores (pais e mestres), governo e sociedade em geral.

Como fazer isso? Rivail ensina que é necessário saber perfeitamente apreciar o efeito de todas as impressões sobre as crianças e em saber dirigir as circunstâncias que podem produzí-las. Rivail define a educação como uma arte particular, distinta das outras que exige estudo especial, pois não é fácil de estudar, nem de praticar. Para ser educador é preciso ter vocação particular, disposição, paciência e sabedoria a toda prova.

A função do educador exige conhecimento profundo do coração humano e da psicologia moral, além de um conhecimento perfeito dos meios mais apropriados a desenvolver nas crianças as faculdades morais, físicas e intelectuais. Rivail adverte que não se pode confiar os filhos, levianamente, a quem não sabe o que é educação. No seu magistério, há profunda diferença entre instrução e educação, conforme se vê:


No século 19 havia um grande preconceito contra tudo que se relacionasse à educação na França, motivo pelo qual a mesma estava longe da perfeição. Já naquele tempo via-se a profissão de educador ligada à condição de humilhação.

Muitos pais menosprezavam a profissão de educador. E, cegos em relação aos filhos julgavam que se fizeram progressos era devido à sua inteligência admirável; se eram tolos, a culpa estava toda na pessoa do professor; se havia reforma nos caracteres, eles possuiam encanto natural; mas, se eram viciosos, a causa eram os professores. Além do mais, era proibido encontrar defeitos nos filhos frente aos seus pais.

Não é necessário relatar a variedade de problemas causados por tais situações. Para Rivail a felicidade humana só é assegurada pelo progresso da educação, que lhe exerce influência direta. Interessa notar que Rivail, com o pseudônimo Allan Kardec irá abordar a questão da felicidade e da infelicidade do Espírito no campo da moral.

Rivail, na sua obra, ponderá sobre o papel da educação pública e a organização das instituições: se ela é viciosa, a educação será necessariamente má. Pensava assim: se todas as instituições fossem convenientemente organizadas, se todos os diretores tivessem a instrução necessária - não falo da instrução científica - mas, da apropriada a essa função, a educação não tardaria a melhorar sensilvelmente.

Em alguns de seus textos, Kardec vai afirmar algo parecido sobre a educação, não aquela adquirida nos livros, mas a educação moral (Livro dos Espíritos e Evangelho Segundo o Espiritismo).

Rival ensina que a educação é o resultado do conjunto de hábitos adquiridos, os quais resultam de impressões que os provocam. O direcionamento dessas impressões depende unicamente do papel dos pais e dos educadores. Uma boa educação resulta de bons educadores.

No seu magistério afirma que se falarmos à inteligência e não somente à memória, o espírito adquire o hábito da reflexão e da observação; ele sabe pensar e leva este hátibo a toda parte. Não é sobrecarregando a memória com palavras que se desenvolve a inteligência na criança desde cedo, mas enriquecendo a sua imaginação com ideias justas.

Rivail conforma-se a Rousseau e a Pestalozzi que defendem o ensino com conteúdo, vivido e experimentado, em detrimento daquele somente palavroso. Além do mais, constata que o sistema de castigo e recompensa é um incoveniente do ensino comum no campo da educação moral, pois usa-se castigo como punição e recompensa com isca ou atração. Nada disso contribui para satisfazer a imaginação dos jovens. O sistema é usado para encher à força a cabeça dos estudantes com palavras vazias.

Interessa notar que Kardec, tratando da Lei de Igualdade, receberá respostas dos Espíritos sobre o papel da sociedade na educação. Temos que tais ensinos coadunam com as ideias centrais do plano de educação proposto por Rivail. Trata-se do uso da educação como um instrumento para que a sociedade possa cumprir o seu papel.

Na proposta de Rivail ele conclui que um plano de instrução, que oferecesse maior variedade e maior satisfação, apresentaria entre outras vantagens, a de contribuir essencialmente ao sucesso da educação moral, fornecendo ao espírito os elementos de ocupações úteis e agradáveis. É a mesma resposta que Allan Kardec irá receber dos Espíritos Superiores nas questões 812 a 813 de O Livro dos Espíritos. 

Rivail tecerá longas considerações no seu trabalho referente ao assunto das ocupações de cada indivíduo.

Com certeza, o que compartilhamos nesse espaço ainda é muito pouco diante da grandeza desse grande homem que foi...

KARDEC, MAS ANTES DE TUDO, RIVAIL, O EDUCADOR.

Uberaba-MG, 12/01/2021
Beto Ramos


FONTE BIBLIOGRÁFICA:

FIGUEIREDO, Paulo Henrique. Revolução Espírita - a teoria esquecida de Allan Kardec. São Paulo: Maat, 2016.

INCONTRI, Dora; GRZYBOWSKI, Przemyslaw. Kardec Educador - Textos Pedagógicos de Hippolyte Léon Denizar Rivail. São Paulo: Editora Comenius (e-book).

domingo, 9 de janeiro de 2022

OBRAS, CONCEITOS E PROPOSTAS DE RIVAIL PARA A EDUCAÇÃO NA FRANÇA DO SÉCULO 19.

Assinando como discípulo de Pestalozzi, H. L. D. Rivail publicou pela Livraria Dentu, Palais Royal, Paris, ano de 1828, o seu Plano Proposto Para a Melhoria da Educação Pública. Destacava logo na primeira página da obra a seguinte frase:

"Os meios próprios para educar a juventude são uma ciência bem distinta que se deveria estudar para ser educador, como se estuda a medicina para ser médico".

Definindo educação Rivail esclarece que "é a arte de formar os homens; de fazer eclodir neles os germes da virtude e abafar os do vício; de desenvolver sua inteligência e de lhes dar instrução própria às suas necessidades; enfim de formar o corpo e de lhe dar força e saúde".

Numa de suas críticas demonstra que a meta da educação é o desenvolvimento simultâneo das faculdes morais, físicas e intelectuais do ser humano, objetivo que todos repetem, mas é o que não se pratica.

Para Rivail, as causas de saber qual é a meta, mas não praticar esse modelo são:

  • Ignorância sobre os meios próprios a se operar esse desenvolvimento;
  • Desconhecimento de quais são os meios para formar o coração, o espírito e o corpo dos homens.

Contudo, não se tratam apenas de críticas vazias. Rivail responde que para superar essa ignorância, além de conhecer os objetivos da educação, é preciso conhecer PERFEITAMENTE o caminho que se deve percorrer.

Como Allan Kardec, Rivail vai repetir esse conceito no item 7 do capítulo 19 de O Evangelho Segundo o Espiritismo, ensinando que a fé necessita de uma base, e essa base é a perfeita compreensão daquilo que se deve crer. Para crer, não basta ver, é necessário sobretudo compreender.

E nessa linha de pensamento Rivail fará algumas indagações a respeito da educação de seu tempo:

  1. O sistema atual pode indicar o caminho a percorrer perfeitamente delineado?
  2. Quais os obstáculos a isso?
  3. Quais os meios de combater esse obstáculos?

Refletindo sobre essas questões Rivail apresentará os três elementos constitutivos da educação para formar o coração, o espírito e corpo dos seres humanos. O objetivo da educação será o desenvolvimento, simultâneo, das faculdades Humanas:

  • Morais;
  • Físicas; e
  • Intelectuais.

É preciso fazer eclodir as virtudes, abafar os vícios e desenvolver a inteligência. Destarte, todo modelo na área da educação deve compreender a necessidade de que esses três elementos caminhem juntos, ao mesmo tempo.

Rivail considera:

a. Fonte das qualidades morais da criança: impressões que recebe desde seu nascimento, talvez antes, que podem agir com mais ou menos energia sobre o seu espírito, PARA O BEM OU PARA O MAL. Tudo que a criança vê e ouve a faz experimentar impressões.

b. Educação intelectual: soma das ideias adquiridas.

c. Educação moral: resultado de todas as impressões recebidas.

Cada objeto dá uma ideia. Cada palavra ouvida e cada ação de que se é objeto ou testemunha, faz experimentar uma emoção.

d. Hábito adquirido: é o resultado de uma mesma impressão mantida durante um certo tempo e frequentemente repetida.

O hábito é uma segunda natureza que nos leva, mesmo a contragosto, a fazer uma coisa, sendo mais comum que ocorra SEM A PARTICIPAÇÃO DA VONTADE.

d. Inclinações: são apenas hábitos inveterados quando não ligados ao temperamento (as que são ligadas ao temperamento são a cólera, vivacidade, lentidão e outras tendências desta natureza).

e. Hábitos sobre a constituição orgânica: contrair movimentos involuntários; posturas de que não se pode livrar.

f. Hábitos indestrutíveis (físicos): os órgãos adquriram certa firmeza na posição que se lhe deixou tomar; se tornaram verdadeiramente endurecidos.

São hábitos com efeitos exteriores e perceptíveis; possuem efeitos internos e dão ao indivíduo tal ou qual impulso, "involuntário", "irresistível', que se manifesta para fora por palavras e por ações.

Rivail esclarece que os hábitos são de natureza física, moral e intelectual. Desse modo, os físicos modificam o corpo físico; os intelectuais consistem na posse mais ou menos perfeita de uma ciência; e os morais são os que nos levam a fazer qualquer coisa de bom ou de mau.

Como Kardec, Rivail vai retomar esse tema e deixará consignado na Questão 685.a de O Livro dos Espíritos que a educação moral é aquela que consiste na arte de formar caracteres, aquela que cria os hábitos, porque educação é o conjunto de hábitos adquiridos.

Segundo expõe, quando essa arte for conhecida, compreendida e praticada, o homem seguirá no mundo os hábitos de ordem e previdência para si mesmo e para os seus, de respeito pelo que é respeitável, hábitos que lhe permitirão atravessar de maneira menos penosa os maus dias inevitáveis. A desordem e a imprevidência são duas chagas que somente uma educação bem compreendida pode curar.

Além disto, importa recordar que n'O Evangelho Segundo o Espiritismo, capítulo 14, sobre esse processo de educação moral, adverte-se sobre o papel fundamental dos pais.

Rivail ensina que é preciso cuidar das más impressões que causamos, citando como exemplo os próprios vícios, os maus conselhos e as conversações pouco adequadas.

Ou seja, há uma completa influência do meio. As crianças recebem impressões das pessoas que a cercam. Os pais com suas fraquezas ou os mestres por sua rigidez excessiva precisam cuidar de suas condutas para não influenciar na má formação do caráter da criança.

Rivail critica, também, o sistema de punições no processo educativo da criança. Elas são geradoras da maior parte dos defeitos e vícios. E, nesse caso destaca:

  1. Punições muito severas;
  2. Punições inflingidas com parcialidade;
  3. Punições aplicadas no momento do mau humor.

Todas somente irritam, sem convencer. E seus efeitos são devastadores, pois, nesses casos:

  • As crianças empregam artimanhas, meios de desvio e fraudes para evitar essas reações dos 'educadores';
  • Produz os germes da má-fé e da hipocrisia.

Para Rivail, a educação falhou no sistema de punição irresponsável, uma vez que:

  1. A criança irritada e não persuadida, responde somente à força (violência);
  2. Nada lhe provou ter agido mal;
  3. O que sabe é que não agiu conforme a vontade do seu responsável;
  4. Essa vontade não é considerada pela criança como justa e razoável;
  5. A criança considera como capricho ou tirania e que foi submetida ao arbítrio.

Não há outros resultados senão os seguintes:

  • A crinça não vê a hora de se libertar da superioridade física;
  • Não reconhece qualquer superioridade moral nos educadores (pais ou mestres);
  • Aguarda impaciente o momento que irá se livrar da FORÇA FÍSICA alcançando a sua PRÓPRIA FORÇA FÍSICA;
  • Sem superioridade moral reina a hostilidade entre as partes;
  • Não há confiança recíproca, nenhum apego; Há contínua troca de ardis; A disputa é: quem será o mais esperto para surpreender o outro?

Assim, esse sistema de punição cria DOIS PARTIDOS, que vão atuar, ou em guerra aberta, ou em contínua desconfiança. Para superar esse estado de coisas Rivail propõe:

  1. Formar na criança o amor ao trabalho e à virtude;
  2. Superar o castigo físico, agir como segundos pais, evitar o ar pedantesco, abolir as palmatórias, demonstrar o amor para alcançar confiança;
  3. Buscar que cada criança confesse as próprias falhas no objetivo de que se possa melhor contribuir para corrigí-las.
É que na conclusão de Rivail o nobre sentimento não é despertado com o mesmo instrumento reservado criminoso.

(Continua...)


Uberaba-MG, 09/01/2021
Beto Ramos


FONTE BIBLIOGRÁFICA:

FIGUEIREDO, Paulo Henrique. Revolução Espírita - a teoria esquecida de Allan Kardec. São Paulo: Maat, 2016.

INCONTRI, Dora; GRZYBOWSKI, Przemyslaw. Kardec Educador - Textos Pedagógicos de Hippolyte Léon Denizar Rivail. São Paulo: Editora Comenius (e-book).

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

CENÁRIO SOCIAL E AMBIENTE POLÍTICO QUE PRECEDE AO 'NASCIMENTO DE KARDEC'.

 

     

Antes do advento de Kardec para o mundo, por meio da sua memorável primeira edição de O Livro dos Espíritos, a França do século 19 vivia um turbulento cenário social e, diante das ideias progressistas, o ambiente político era de constante tensão.

Em 1850, a igreja aumentava consideravelmente o seu poder sobre as escolas. Desse modo, a instituição era contrária aos ideais republicanos que queriam escolas que preparassem trabalhadores leigos para o serviço público.

Como já expusemos, havia uma concorrência muito forte entre regimes políticos, cujo cenário se modificava em questão de breve tempo. Na área da educação ocorria a disputa entre o grupo defensor de línguas clássicas e o grupo defensor do ensino técnico; No campo da religião, havia unanimidade. Apesar de uns reclamarem a religião obrigatória ao povo e outros não, todos queriam uma EDUCAÇÃO MORAL.

Defendia-se e se compreendia a educação moral no contexto da necessidade de ensinar aos jovens e aos adultos as regras de ordem social, de autoridade e de propriedade. Acima das questões ideológicas, que deveriam reger o sistema educacional, havia consenso quanto aos objetivos e recursos.

Nesse contexto concorriam dois tipos de institutições de ensino:

a. A dos nobres (ricos); e,

b. A do povo (pobres).

Para os primeiros (classe dominante), o programa era a cultura clássica e o conhecimento científico; Aos segundos (os pobres), a educação básica ligada ao sentimento moral e obediência.

O método de ensino nesse período pode ser assim resumido:

  • Professores limitando a espontaneidade dos alunos;
  • Autoridade baseada na disciplina para conter protestos e revolta;
  • Liberdade de pensamento apreciada somente para adultos, não para crianças e jovens;
  • Inexistência de espaço para discussão com professores sobre qualquer tema.
Rivail estava presente nesse contexto e participava ativamente sobre as discussões do novo sistema educacional francês que tentava romper  com o velho, que resistia, o que implicava em grande dificuldade para se consolidar.

Entre várias questões que defendeu, uma merece destaque: Rivail considerou como um dos maiores problemas das institutições educativas a falta de educação moral. Segundo ele, essa educação é que é capaz de proporcionar elementos para a criança se tornar um cidadão honesto e de boa vontade.

Demonstrando sua maneira de ver a questão, Rivail apresenta o sistema hierárquico da aristocracia que constituiu a história humana: aristocracia da força; aristocracia da lei; aristocracia do dinheiro; As quais deram lugar para a aristocracia da razão.

No seu livro destinado ao primeiro grau da instrução primária, Catecismo Gramatical da Língua Francesa (Editado em Sévres), Rivail irá demonstrar o que pensava sobre educação. Resumindo, Rivail vai declarar:

  1. Educação é uma ciência única;
  2. A causa de pessoas ensinarem de forma inadequada é a FALTA DE ESTUDOS ESPECIALIZADOS;
  3. Poucas pessoas avaliam o verdadeiro objetivo da educação porque não compreendem o que é educação;
  4. Muitos não compreendem o que a educação pode ser;
  5. Muitos não compreendem o que fazer para que a educação melhore;
  6. A educação, no século 19, não é uma ciência totalmente constituída, cujas bases não estão ainda definidas.

Para melhorar o sistema de educação e do ensino público, Rivail propôs:

  • Criar uma escola de teoria e prática pedagógica, como são as de direito e de medicina;
  • A duração do tempo de estudos seria em 3 (três) anos. O primeiro dedicado ao estudo da teoria;  o segundo para teoria e prática; e o terceiro somente destinado à prática.

Em 1850 surgem as últimas obras pedagógicas de Rivail. Há paralelos e vinculações entre o pensamento e produção literária de Rivail com a proposta espírita, conforme é passível de observação nos comentários de Kardec e no ensino dos Espíritos. São dois períodos de vida da mesma pessoa. Ambos baseados nos mesmos ideiais. Portanto, a Doutrina Espírita é rica em valores educativos.

O Livro dos Espíritos, primeira obra de Rivail sob o pseudônimo Allan Kardec, estrutura-se na proposta da grade curricular que se estudava no campo da Filosofia Espiritualista Racional do século 19, como se observa das informações colhidas no Tratado Elementar de Filosofia, de autoria de Paul Janet.

Quem se der ao trabalho de estudar seriamente o pensamento de Rivail e o conteúdo da Doutrina Espírita verificará, por exemplo, nas questões 685.a, 797, 872, 914 e 917, de O Livro dos Espíritos, os paralelos e vinculações que acabamos de citar.

(Continua...)


Uberaba-MG, 06/01/2021
Beto Ramos


FONTE BIBLIOGRÁFICA:

FIGUEIREDO, Paulo Henrique. Revolução Espírita - a teoria esquecida de Allan Kardec. São Paulo: Maat, 2016.

INCONTRI, Dora; GRZYBOWSKI, Przemyslaw. Kardec Educador - Textos Pedagógicos de Hippolyte Léon Denizar Rivail. São Paulo: Editora Comenius (e-book).

segunda-feira, 3 de janeiro de 2022

KARDEC, ANTES DE TUDO, RIVAIL "O EDUCADOR".


Caso se pergunte a alguém, preferencialmente aos espíritas, quem foi Kardec, certamente para uns a resposta será: o organizador do espiritismo; e, para outros, o codificador do espiritismo.

É curioso dizer, mas, Allan Kardec, o organizador da Doutrina Espírita, foi alguém que nasceu em 18/04/1857 e com a idade adulta de  aproximadamente 52 anos. É que esse nome é um pseudônimo. Na verdade, antes do advento de Kardec para o mundo, viveu outro homem.

É imperativo saber:

KARDEC FOI, ANTES DE TUDO, RIVAIL, O EDUCADOR.

Mais da metade da vida de Rivail, depois Kardec, foi dedicada à educação da juventude. Sua vida foi influenciada por destacados pedagogos, que lhe serviram de modelo e inspiração (assista o vídeo em nossa plataforma).

No século 19, Rivail foi considerado um ESPECIALISTA em assuntos de ensino. Por meio de suas obras, ele dialogava com alunos, professores e outros profissionais do ensino e da educação, além de influentes personagens da área jurídica e administrativa do sistema educacional francês.

O movimento espírita conhece pouco ou quase nada de Kardec. Mas, Rivail, o educador, não é mencionado como tal e nem há ênfase da sua importância para o mundo que se pretende regenerar.

Nessa reflexão não estamos aludindo ao título educador, mas quem é, o que fez, qual o tamanho de sua obra e a proeminência de Rivail para a França do século 19 no campo da educação.

Quem foi o pedagogo Rivail? Como se desenvolveram seus conceitos de ensino e educação? Qual sua proposta para educar o povo?

Talvez a primeira questão a se abordar seria o esquecimento de quem foi Rivail. O primeiro 'culpado' disto é ele próprio. Rivail pretendeu isso. Pode-se imaginar que objetivou proteger pessoas; não quis usar seu prestígio para divulgar o espiritismo; não desejou ofuscar a nascente ciência-filosófica, seu conteúdo e sua importância.

Sobre Rivail e Kardec, possuindo muito em comum, destaca-se que ambos obtiveram sucesso com as obras que publicaram. No entanto, Kardec abordou com bastante clareza temas que Rivail não discutiu com a mesma profundidade.

Quem foi Rivail antes de O Livro dos Espíritos? Foi alguém que dedicou um grande período de sua vida ao trabalho pedagógico. Trabalhou com o ensino e a educação, publicou livros específicos e artigos com considerações profundas acerca dos problemas dessa área do conhecimento.

Se você desejar conhecer a história da família de Rivail, sua infância e formação, acesse os endereços abaixo (o número 1 possui 3 partes) e leia tudo:

1. A HISTÓRIA DO ESPIRITISMO...

2. A VIDA DE RIVAIL NO CAMPO...

3. INFÂNCIA E INFLUÊNCIA DO MEIO NA OBRA...

4. YVERDON-LES-BAINS: RIVAIL E PESTALOZZI SE ENCONTRAM

Após deixar Yverdom Rivail seguirá carreira no campo da educação, pela qual dedicará sua vida. Abaixo, um breve histórico:

1823 - Lança sua primeira obra pedagógica: Curso Prático e Teórico de Aritmética Segundo os Princípios de Pestalozzi, com modificações.

12/1823 - Lançamento da obra completa, uma vez que a anterior tinha apenas 16 páginas. Recomenda o livro a professores e mães que desejassem ensinar para as crianças as regras básicas de aritmética.

1825 - Se torna diretor de uma escola de 1º grau, fundada por ele em Paris. Para essa ocasião publica um livreto de 8 páginas.

1826 - Fundou a instituição Rivail, um instituto técnico, onde aplicou o método de Pestalozzi, o qual funcionou por 9 anos.

1830 - Traduz, para o alemão, "Aventuras de Telêmaco", cujo autor foi François de Salignac de La Mothe Fénelon, na qual acresceu comentários para uso em educandários, entre outros, como objeto de estudos comparados de línguas. Rivail era poliglota e dominava várias línguas.

1831 - Rivail recebeu um prêmio pela obra "Memorando sobre o seguinte problema: qual é o sistema de estudo mais conveniente às necessidades da época atual?".

1832 - Se casa com Amélie Boudet e fundam um educandário para moças nas proximidades de Paris, que foi dirigida por Amélie.

14/08/1834 - Rivail profere discurso na distribuição de prémios em sua escola. No mesmo apresenta noções importantes da pedagogia que praticava.

Na institutição que fundou, física e química eram matérias obrigatórias, além de literatura, geografia, história, gramática, escrita, leitura, desenho geomético, etc., abordando, também, anatomia e fisiologia.

1834 - Fechou o seu instituto, vendendo-o para passar a trabalhar como contador e tradutor de livros, além de elaborar programas de estudos para alunos de escolas do subúrbio.

1835 - 1840 - Dirigiu cursos populares gratuitos de Química, Física, Astronomia e Anatomia Comparada.

1848 - Rivail dirigiu o Liceu Polimático. Ministrou cursos de Fisiologia, Astronomia, Química e Física. Produziu manuais didáticos, planos, exercícios, compilações de métodos para professores e pais, projetos para políticos e pedagogos.

Ao longo dos textos e livros publicados, Rivail demonstra percepções distintas de sua época. História para ele não se limita a datas e parentescos familiares. Era necessário estudar costumes, descobertas, progressos da arte e da ciência em períodos sucessivos. Estudar canto era tão necessário quanto a leitura.

Nesse período Rivail já afirmava que houve o tempo da força bruta como lei, hoje é o mesmo com a força do espírito; Que, quem aprende, trabalha por sua própria felicidade. Foi reconhecido como um dos melhores gramáticos de seu tempo na França. Era um cientista e pertenceu a diversos institutos, devidamente dimplomado.

No período de produção de Rivail, a situação do sistema escolar da Europa Ocidental evoluiu influenciada por mudanças progressistas da sociedade.

A política caminhava em direção à democracia. E isso requeria mudanças nas atividades do meio intelectual, no sentido de possibilitar aos cidadãos adquirir conhecimentos necessários à utilização do seu poder. A democracia dependia dos programas educativos.

É nesse cenário que surge a ideia da obrigatoriedade e gratuidade da instrução pública, a princípio para o ensino de primeiro grau. Além disto, o ensino técnico reclamava o seu lugar. O segundo grau se caracterizou pelo estudo de línguas vivas e não clássicas.

Nessa conjuntura, há o distanciamento das escolas e as igrejas. A ideia era a cultura se tornar leiga e o Estado assumir o poder sobre ela. Nesse tocante importa recordar as características do ensino dominado pelos religiosos:

  • A língua era o latim;
  • O viver era baseado na ideia cristã;
  • O objetivo era o aluno enfrentar problemas administrativos e econômicos;
  • O programa de estudos continha muitos elementos de religião;
  • Os professores, frequentemente, eram clérigos;
  • As mentes eram formadas para obedecerem às ingrejas e ao Estado;
  • Em universidades, apenas teólogos, juristas e médicos recebiam ensino especializado; e,
  • Havia tratamento diferenciado para os sexos nesse período.

De maneira geral, a Europa, sobretudo Suíça e Alemanha, com algum alcance sobre as colônias inglesas e os Estados Unidos, buscavam desenvolver métodos ativos e intuitivos, que permitissem aos alunos participarem do processo de ensino e acompanhar a descoberta da verdade junto aos professores.

A França de Rivail, contudo, era um país onde prevalecia a Tradição. Pesava o senso de hierarquia social e da aristocracia. Em meio a isso surgem os serviços públicos e as profissões liberais, dentre às quais pertencia o gênero de trabalho braçal.

Dessa forma, ao contrário de avançar, tornou-se um obstáculo ao desenvolvimento. Escolas de segundo grau, por exemplo, não buscaram desenvolver uma educação que servisse às pessoas "menos importantes".

Por outro lado, a industrialização francesa fez surgirem condições favoráveis à educação pública. O aprendizado era visado pelos ricos que desejavam que alguns operários se instruíssem, adquirindo e aperfeiçoando sua capacidade técnica. Surge, também, a necessidade de garantir cuidados às crianças para que seus pais pudessem trabalhar durante o dia.

Mas, sendo um país profundamente católico e com ligação umbilical com a igreja, a transformação das escolas em instituições leigas encontra muita resistência. Pensava-se que a direção tomada pela evolução do sistema educacional era nocivo aos católicos, privilegiando os demais credos.

A igreja resistia.

Por meio do partido liberal, controlova as Universidades e cuidava de interesses próprios. Em 1850, a igreja aumenta seu poder sobre as escolas. Passa a ser permitido que criem e desenvolvam seus educandários.

A igreja era contra os republicanos que queriam escolas que preparassem trabalhadores leigos para o serviço público. No século 19 francês verificava-se a concorrência entre diferentes regimes políticos. Tudo se transformava em questão de breve tempo: governos, ministros e leis.

(Continua...)


Uberaba-MG, 03/01/2021
Beto Ramos


FONTE BIBLIOGRÁFICA:

FIGUEIREDO, Paulo Henrique. Revolução Espírita - a teoria esquecida de Allan Kardec. São Paulo: Maat, 2016.

INCONTRI, Dora; GRZYBOWSKI, Przemyslaw. Kardec Educador - Textos Pedagógicos de Hippolyte Léon Denizar Rivail. São Paulo: Editora Comenius (e-book).



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