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terça-feira, 3 de novembro de 2026

O PARTIDO ESPÍRITA!

 A proposta Espírita é estudar a Doutrina como ciência da observação e como uma Filosofia Moral. Nessa perspectiva, deve fazê-lo com seriedade, racionalidade e à luz das obras de Allan Kardec.

Em época de eleições, as ruas são tomadas por bandeiras, as redes sociais ficam polarizadas, surgem discussões acirradas na família, no trabalho e até dentro das redes sociais e dos centros espíritas. Candidatos prometem o paraíso, eleitores cobram milagres, e o clima de divisão parece constante.

Mas afinal, o que o Espiritismo tem a dizer sobre isso? Allan Kardec, o organizador do Espiritismo, falou sobre política, voto ou escolha de representantes? O Centro Espírita deve tomar partido? O Espiritismo é Neutro, mas não indiferente. Nossa primeira grande construção histórica é que não existe um "partido espírita".

Em julho de 1868, na Revista Espírita, NO ARTIGO INTITULADO ‘O PARTIDO ESPÍRITA’, o próprio Allan Kardec respondeu a acusações de que o Espiritismo seria uma facção política disfarçada.

E ele foi categórico afirmando desde logo que “o Espiritismo é uma doutrina de moral e de livre pensamento”. Ele une os homens pela comunhão de ideias espirituais e morais, E NUNCA pelas disputas do poder temporal.

Para quem acha que isso é invenção moderna, vale lembrar que no capítulo 30 de O Livro dos Médiuns, ao redigir o regulamento da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, NO SEU ARTIGO PRIMEIRO, Capítulo I, Fins e Constituição da Sociedade, o organizador do Espiritismo proibiu expressamente discussões políticas e sectárias dentro da instituição.

E aqui importa um ALERTA! O Centro Espírita é um porto seguro de consolo e estudo. Quando deixamos a política partidária entrar nos nossos debates internos, trocamos a busca pelo sopro espiritual pelas querelas da Terra.

É imprescindível analisar a raiz dos Governos e o Voto sob a ótica moral e buscar um APROFUNDAMENTO FILOSÓFICO: se Kardec diz para não misturar Espiritismo com partido, significa que o espírita deve ser omisso ou não votar?

De jeito nenhum! A resposta está na Terceira Parte de O Livro dos Espíritos, nas questões sobre a Lei de Sociedade e a Lei de Progresso. Quando questionado sobre as formas de governo (monarquia, república, democracia), a Espiritualidade Superior ensina a Kardec uma máxima lapidar: Os povos têm os governos que merecem.

Como exemplo, pensemos criticamente: um povo egoísta, corrupto na pequena esfera do dia a dia, que busca vantagens fáceis, elegerá naturalmente representantes que refletem exatamente esses mesmos vícios.

A política não surge do nada; ela é o termômetro moral da sociedade. Então, qual é o PAPEL DO VOTO? para o espírita, o voto não é um ato banal ou puramente emocional. É um ato de responsabilidade moral. Quando votamos, escolhemos quem administrará os recursos coletivos e influenciará a vida de milhares de irmãos.

Por isso, a escolha do representante deve passar pelo crivo da razão, da ética, da honestidade e do compromisso com o bem comum — e nunca por fanatismo ideológico ou interesses puramente pessoais.

É preciso buscar a verdadeira Reforma Social. A nossa mensagem central perpassa pela reflexão profunda: muitas vezes, caímos na ilusão de que o salvador da pátria virá das urnas para resolver todos os problemas estruturais de uma nação por passe de mágica.

Em fevereiro de 1862, escrevendo aos espíritas de Lyon, no artigo intitulado RESPOSTA DIRIGIDA AOS ESPÍRITAS LIONESES POR OCASIÃO DO ANO NOVO, Kardec fez um alerta que ecoa até os dias atuais. Disse o Professor Rivail: "Procurai, no Espiritismo, aquilo que vos pode melhorar; eis o essencial. Quando os homens forem melhores, as reformas sociais verdadeiramente úteis serão uma consequência natural."

Pense nisso: nenhuma lei humana, por mais bem-intencionada que seja, transforma o coração humano à força. As leis mudam de cima para baixo, mas a verdadeira justiça só se instala quando a criatura humana se transforma moralmente de dentro para fora.

O político ideal que tanto buscamos lá fora começa a nascer quando nós mesmos nos esforçamos para sermos cidadãos mais justos, honestos e tolerantes no nosso cotidiano.

Portanto, neste período eleitoral, exerça a sua cidadania com plenitude. Vote consciente, estude propostas, use o raciocínio lógico que o Espiritismo nos encoraja a ter, mas mantenha a serenidade.

Não deixe que a paixão política destrua a fraternidade dentro da sua família ou da sua casa espírita. Lembre-se: os governos passam, as bandeiras partidárias mudam, mas o nosso compromisso com a caridade e com a evolução moral é eterno.

Uberaba-MG, 03 de novembro de 2026

Beto Ramos

O ESPIRITISMO É DE ESQUERDA OU DE DIREITA?

Se você frequenta o movimento espírita hoje, ou acompanha as redes sociais, com certeza já presenciou essa cena. De um lado, um grupo afirma com toda a certeza do mundo: "O Espiritismo é de Direita! Afinal, Kardec defendia a propriedade privada, era contra revoluções violentas e combatia o materialismo do comunismo." Do outro lado, no mesmo centro espírita, outro grupo responde com o mesmo vigor: "De jeito nenhum! O Espiritismo é de Esquerda! Veja o foco na justiça social, na igualdade entre homens e mulheres, no combate à miséria e na caridade universal."

Essa divisão virou uma verdadeira queda de braço que afasta pessoas, divide instituições e, pior de tudo, cria uma polarização que simplesmente não faz sentido dentro da obra de Allan Kardec. Se você já se pegou no meio desse fogo cruzado, ou se tem aquela dúvida sincera sobre qual seria o posicionamento político ideal de um espírita, este texto é para você. Mas, prepare-se, o que a história e a Filosofia Espírita nos revelam vai quebrar as expectativas de ambos os lados.

Vamos mergulhar direto nos fatos, no contexto do século dezenove e nas palavras exatas dos Espíritos Superiores para responder, de uma vez por todas: O Espiritismo é de Esquerda ou de Direita? Se você gosta de reflexões profundas, com base doutrinária sólida e sem fugir dos grandes debates do nosso tempo, vem comigo.

Antes de abrirmos as obras de Kardec, nós precisamos dar um passo atrás e entender do que nós estamos falando. Afinal de contas, de onde nasceram essas palavras, "Esquerda" e "Direita"? Para descobrir isso, nós temos que viajar no tempo e voltar até a Revolução Francesa, no final do século dezoito. 

Imagine o cenário: o Parlamento francês estava reunido para decidir o futuro do país. No centro da grande sala, sentava-se o Rei.

À direita do Rei, ficava a bancada dos Lordes, da alta aristocracia e dos representantes da Igreja. O papel desse grupo era muito claro: manter o status quo. Ou seja, defender os privilégios de nascença, a autoridade do monarca e garantir que as coisas ficassem exatamente como estavam, independente do sofrimento ou da miséria em que o povo vivia. Daí nasceu o conceito de Direita: a ala conservadora, ligada à preservação dos privilégios das elites e do poder estabelecido.

Por outro lado, sentados à esquerda do Rei, ficavam os chamados "Comuns". Quem eram eles? Eram os representantes do povo, da classe trabalhadora e da burguesia nascente. Esse grupo debatia e lutava por mudanças estruturais, pela melhoria das condições de vida da população e pela quebra dos privilégios da nobreza. Daí nasceu o conceito de Esquerda: a ala progressista, focada na transformação social e nos direitos das classes populares.

Agora guarde bem essa imagem mental: de um lado, os Lordes preservando riquezas; do outro, os Comuns exigindo justiça. Quando Allan Kardec começou a publicar os Livros e a Revista Espírita, em 1857/58, a Europa estava em plena ebulição por causa dessas duas visões, que já tinham evoluído para teorias bem mais complexas. E para entender por que o Espiritismo não se encaixa em nenhuma dessas caixas, nós precisamos analisar como Kardec e os Espíritos trataram cada uma delas. Vamos começar pela Esquerda da época.

No século dezenove, a Esquerda europeia dividia-se essencialmente em duas grandes correntes que tentavam resolver a miséria gerada pela Revolução Industrial. A primeira era o Socialismo Utópico, defendido por nomes como Saint-Simon, Fourier e Cabet. Eles propunham criar comunidades cooperativas perfeitas e autossuficientes, onde tudo fosse compartilhado e o trabalho fosse voluntário e pacífico.

A segunda corrente, muito mais radical, era o Socialismo Científico, ou o Comunismo, sistematizado por Karl Marx e Friedrich Engels no Manifesto Comunista de 1848. Essa vertente enxergava a história humana unicamente através de uma lente: a luta de classes movida por fatores econômicos. Para eles, a única solução era a destruição absoluta da propriedade privada e a tomada violenta do poder pelo proletariado.

Allan Kardec conhecia profundamente essas teorias. Ele leu os jornais da época, acompanhou as tentativas de colônias socialistas e debateu esses temas na Revista Espírita. E a conclusão da Doutrina é categórica: o Espiritismo afasta o comunismo radical e o socialismo materialista. Mas por quê? São três razões centrais.

Primeiro: A Rejeição Absoluta ao Materialismo Histórico. O comunismo marxista afirma que a economia comanda tudo; que a matéria e a estrutura financeira determinam a mente do homem. A Ciência Espírita inverte e amplia completamente essa lógica. Para o Espiritismo, o Espírito é a causa pré-existente e primária. A matéria e as condições sociais são apenas os efeitos, as ferramentas de aprendizado necessárias para a evolução da alma.

Em O que é o Espiritismo, Kardec define a Doutrina como a antítese direta do materialismo, classificando a negação da alma como uma verdadeira "chaga social" que destrói a esperança humana. Não dá para alinhar uma filosofia que diz que o homem é só matéria com uma Doutrina que prova, por fatos e lógica, que a alma é imortal.

A segunda razão é A Inviabilidade da Comunhão Forçada de Bens. Na Revista Espírita, Kardec analisou o fracasso das colônias que tentavam impor a igualdade material por decreto. Ele argumentou que tentar dividir todas as riquezas igualmente, sem que as pessoas tenham se transformado moralmente por dentro, é uma ilusão. Sem a reforma íntima, a comunhão de bens degenera rapidamente na preguiça coletiva, na inveja ou na lei do mais esperto, porque o ser humano atual ainda é movido pelo orgulho e pelo egoísmo.

E a terceira razão é A Defesa da Propriedade Privada e a Recusa da Violência. Se você abrir O Livro dos Espíritos, nas questões 880 a 892, os Espíritos Superiores são muito claros: o direito de propriedade é legítimo e natural, desde que seja fruto do trabalho e do esforço honesto de cada um. O comunismo prega a abolição desse direito e, frequentemente, o uso da força revolucionária violenta para derrubar o sistema. Kardec condena categoricamente essas revoluções violentas. Ele as chama de "paroxismos dolorosos" que destroem coisas e vidas, mas que são incapazes de regenerar o homem por dentro.

Para a Doutrina, a verdadeira transformação social é moral, gradual e precisa nascer da evolução voluntária das consciências, nunca da imposição de uma ditadura ou do derramamento de sangue.  Em síntese, para Kardec, a Esquerda materialista erra profundamente ao tentar curar as dores e os males da alma humana usando apenas receitas econômicas e materiais. O remédio espírita não é uma revolução de fora para dentro imposta pelo Estado, mas a regeneração íntima do homem. Da qual, naturalmente, a justiça social e a fraternidade serão consequências lógicas e duradouras. Por isso, o Espiritismo afasta com vigor a Esquerda materialista e revolucionária.

"Ah, então o Espiritismo é de Direita! Resolvido!" Calma, não tire conclusões precipitadas. É justamente aqui que a pesquisa fica ainda mais interessante e surpreendente. Porque se o Espiritismo não compactua com o materialismo da Esquerda, ele ataca com a mesma força os pilares que sustentam a Direita conservadora e os donos do poder. Quais são os motivos desse enfrentamento contra a Direita, com as conexões impressionantes sobre o que nós vivemos nos dias de hoje?

Agora que nós desconstruímos o mito de que o Espiritismo apoia a Esquerda materialista, nós precisamos olhar com a mesma coragem e o mesmo vigor para o outro lado do plenário. Como nós vimos lá na origem dos termos, a Direita nasceu para defender os Lordes, o clero absolutista e a manutenção estática do sistema a qualquer custo. E quando nós vasculhamos os fundamentos contidos em O Livro dos Espíritos e nos arquivos da Revista Espírita, nós descobrimos que a Doutrina desmorona as premissas estruturais da Direita conservadora por meio de quatro pilares irrefutáveis.

O primeiro pilar é a condenação absoluta dos privilégios de nascença e de casta. A Direita aristocrática original justificava a desigualdade social como se ela fosse uma "vontade divina" ou um direito consanguíneo intocável. Sabe aquela ideia de que "uns nasceram para mandar e outros para obedecer"? Pois bem, na Lei de Igualdade de O Livro dos Espíritos, os Espíritos Superiores são categóricos: todos os homens são criados rigorosamente iguais perante Deus. Nós somos submetidos às mesmas leis naturais e físicas.

E Kardec vai além. Na Revista Espírita de dezembro de 1858, ele escreve com todas as letras que as distinções sociais baseadas em vantagens corporais ou mundanas são fundadas unicamente no orgulho, nas castas e — prestem bem atenção nisso — nos "estúpidos preconceitos étnicos". O professor Rivail afirma textualmente que a Doutrina faz desaparecer essas barreiras ao restituir a igualdade de direitos e promover a abolição dos privilégios de raças. Para as elites de Direita da época, ouvir que um nobre e um trabalhador tinham o mesmo valor espiritual era um absurdo completo.

O segundo pilar é o que mais incomoda o pensamento conservador atual: o ataque à ideia de que a riqueza é um direito absoluto e sem deveres. Enquanto os Lordes da época defendiam que podiam fazer o que quisessem com suas posses, sem nenhuma contrapartida social — um discurso que, sejamos honestos, é repetido hoje por quem defende a concentração desenfreada de riquezas, o sistema financeiro intocável e bilionários acima das leis —, o Espiritismo desconstrói completamente essa noção de propriedade intocável.

Nas questões 808 a 813 de O Livro dos Espíritos, a Doutrina nos ensina que a miséria extrema e as disparidades sociais absurdas são obras do egoísmo humano, e não de Deus. A riqueza nunca é vista na Doutrina como um privilégio de deleite, mas sim como uma prova de extrema responsabilidade moral. O milionário, o banqueiro, o grande empresário são apenas depositários temporários de um recurso que pertence a Deus.

Se o detentor do capital acumula por puro egoísmo e nega o bem-estar ou o fruto justo do trabalho ao seu semelhante (olha a discussão da escala 6x1 aí, gente, que retira o descanso digno do trabalhador para maximizar o lucro a qualquer custo) é uma violação direta da Lei de Justiça, Amor e Caridade. E esse princípio não está escondido não; ele está amplamente detalhado e endossado de forma moral no capítulo dezesseis de O Evangelho segundo o Espiritismo: "Não se pode servir a Deus e a Mamon". Mamon é a riqueza amoral, e o Espiritismo nos alerta que se render a ela é o caminho da falência espiritual.

O terceiro pilar é a defesa intransigente do progresso. A essência profunda do pensamento conservador é o imobilismo social, aquela velha máxima de que "as coisas sempre foram assim e devem continuar como estão". O Espiritismo estraçalha essa barreira ao estabelecer o Progresso como uma Lei Natural irreprimível. Na questão 783 de O Livro dos Espíritos, os benfeitores espirituais determinam que "o homem não pode conservar-se indefinidamente na ignorância". E no comentário dessa mesma questão, Kardec escreve um dos alertas mais fortes da obra: ele explica que as ideias de progresso vão se infiltrando pouco a pouco, e quando as instituições e as forças políticas tentam represar essa evolução para manter seus privilégios de Direita, as revoluções morais e sociais estouram de forma inevitável para desmoronar o passado. O Espiritismo rejeita o imobilismo e caminha de mãos dadas com a evolução das leis civis e das condições humanas (é progresso e nada de conservar).

E o quarto pilar é a emancipação da mulher e o ensino laico. A Direita francesa daquela época era profundamente clerical, ou seja, andava de mãos dadas com o clero da Igreja Católica para defender a submissão da mulher e manter o controle dogmático e com medo das escolas. E convenhamos: a Direita atual prega exatamente a mesma coisa, a única diferença é que hoje eles incluíram mais religiões nesse mesmo balaio para tentar controlar o comportamento social e o debate público. O Espiritismo rompeu radicalmente com esse bloco religioso e conservador. Nas questões 817 a 822 de O Livro dos Espíritos, a Doutrina prova que a mulher e o homem possuem direitos rigorosamente iguais perante Deus e afirma que a submissão feminina é uma opressão fruto da força bruta, e não da natureza.

Além disso, Kardec, como o brilhante pedagogo e discípulo de Pestalozzi que era, defendeu ao longo de toda a Revista Espírita e na sua Viagem Espírita em 1862 a instrução universal, pública e laica. Uma educação voltada para a moralização, mas totalmente desatada dos dogmas opressores das penas eternas e do medo do inferno, que o clero e as elites usavam como cabresto político para dominar a população.

Por essa síntese, fica claro o seguinte: se a Esquerda erra pelo materialismo, a Direita erra pelo egoísmo, pelo privilégio de casta e pelo desejo de paralisar a marcha da humanidade. E se a direita daquela época pedia o poder absoluto do Rei, a direita de hoje pensa, expressa e age exatamente do mesmo modo, mudando apenas o personagem: em vez do monarca, muitos hoje clamam e pedem por um ditador. O Espiritismo confronta tudo isso. A Doutrina se coloca ao lado do oprimido, do trabalhador, da justiça distributiva e do progresso social. Allan Kardec não aceitou o assento com os "Comuns" revolucionários de Karl Marx, mas ele jamais compartilhou a mesa com os "Lordes" reacionários que sangravam o povo para manter suas coroas.

Então, afinal de contas, onde fica o Espiritismo nesse tabuleiro político? Para entender o verdadeiro lugar da Doutrina, nós temos que lembrar que a Filosofia Espírita nasceu como parte do Espiritualismo Racional do século dezenove, uma corrente respeitadíssima que era ensinada nos Liceus e na própria Sorbonne, em Paris. Essa linha de pensamento buscava justamente uma terceira via filosófica: ela combatia o niilismo e o materialismo da ciência nascente, mas sem retroceder ao fanatismo, à superstição e ao controle social exercido pelas igrejas tradicionais.

Kardec aplicou esse método científico e racional à sociologia espírita. Para ele, o grande problema do mundo não estava puramente na estrutura econômica das fábricas — como dizia a Esquerda —, e muito menos na preservação das tradições e hierarquias de poder — como defendia a Direita. Para o Espiritismo, o motor do mundo é o grau de evolução moral do homem.

Tanto o capitalismo desenfreado quanto o comunismo estatal falharam e vão continuar falhando se forem operados por homens egoístas, orgulhosos e vaidosos. Você pode mudar as leis de um país cem vezes, mas se o caráter dos cidadãos e dos governantes continuar corrompido, a opressão apenas mudará de mãos.

Disso decorre a nossa máxima mais profunda: a fraternidade verdadeira e a justiça social só serão alcançadas por meio da regeneração íntima, da qual as reformas externas serão um subproduto natural, justo e duradouro. O remédio espírita não é a revolução socioeconômica imposta de fora para dentro pela força, e nem o imobilismo conservador que protege os poderosos. O Espiritismo propõe uma reforma de dentro para fora.

Portanto, tentar puxar Kardec para a Esquerda ou para a Direita é reduzir uma ciência cósmica e imortal às paixões miúdas de um planeta de provas e expiações. O Espiritismo não cabe nesses rótulos humanos. Ele está acima deles, convidando cada um de nós a sermos os verdadeiros agentes de progresso através da nossa própria transformação moral.

Uberaba-MG, 03 de novembro de 2026

Beto Ramos

domingo, 4 de outubro de 2026

O PARTIDO ESPÍRITA

A proposta Espírita é estudar a Doutrina como ciência da observação e como uma Filosofia Moral. Nessa perspectiva, deve fazê-lo com seriedade, racionalidade e à luz das obras de Allan Kardec.

Estamos em plena época de eleições. Ruas tomadas por bandeiras, redes sociais polarizadas, discussões acirradas na família, no trabalho e até dentro das redes sociais espíritas. Candidatos prometem o paraíso, eleitores cobram milagres, e o clima de divisão parece constante.

Mas afinal, o que o Espiritismo tem a dizer sobre isso? Allan Kardec, o organizador do Espiritismo, falou sobre política, voto ou escolha de representantes? O Centro Espírita deve tomar partido?

O Espiritismo é Neutro, mas não indiferente. Nossa primeira grande construção histórica é que não existe um "partido espírita".

Em julho de 1868, na Revista Espírita, NO ARTIGO INTITULADO ‘O PARTIDO ESPÍRITA’, o próprio Allan Kardec respondeu a acusações de que o Espiritismo seria uma facção política disfarçada.


E ele foi categórico afirmando desde logo que “
o Espiritismo é uma doutrina de moral e de livre pensamento”. Ele une os homens pela comunhão de ideias espirituais e morais, E NUNCA pelas disputas do poder temporal.

Para quem acha que isso é invenção moderna, vale lembrar que no capítulo 30 de O Livro dos Médiuns, ao redigir o regulamento da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, NO SEU ARTIGO PRIMEIRO, Capítulo I, Fins e Constituição da Sociedade, o organizador do Espiritismo proibiu expressamente discussões políticas e sectárias dentro da instituição.


E aqui importa um ALERTA! O Centro Espírita é um porto seguro de consolo e estudo. Quando deixamos a política partidária entrar nos nossos debates internos, trocamos a busca pelo sopro espiritual pelas querelas da Terra.

É imprescindível analisar a raiz dos Governos e o Voto sob a ótica moral e buscar um APROFUNDAMENTO FILOSÓFICO: se Kardec diz para não misturar Espiritismo com partido, significa que o espírita deve ser omisso ou não votar?

De jeito nenhum! A resposta está na Terceira Parte de O Livro dos Espíritos, nas questões sobre a Lei de Sociedade e a Lei de Progresso. Quando questionado sobre as formas de governo (monarquia, república, democracia), a Espiritualidade Superior ensina a Kardec uma máxima lapidar: Os povos têm os governos que merecem.


Como exemplo, pensemos criticamente: um povo egoísta, corrupto na pequena esfera do dia a dia, que busca vantagens fáceis, elegerá naturalmente representantes que refletem exatamente esses mesmos vícios.

A política não surge do nada; ela é o termômetro moral da sociedade. Então, qual é o PAPEL DO VOTO? para o espírita, o voto não é um ato banal ou puramente emocional. É um ato de responsabilidade moral. Quando votamos, escolhemos quem administrará os recursos coletivos e influenciará a vida de milhares de irmãos.

Por isso, a escolha do representante deve passar pelo crivo da razão, da ética, da honestidade e do compromisso com o bem comum — e nunca por fanatismo ideológico ou interesses puramente pessoais.

É preciso buscar a verdadeira Reforma Social. A nossa mensagem central perpassa pela reflexão profunda: muitas vezes, caímos na ilusão de que o salvador da pátria virá das urnas para resolver todos os problemas estruturais de uma nação por passe de mágica.

Em fevereiro de 1862, escrevendo aos espíritas de Lyon, no artigo intitulado RESPOSTA DIRIGIDA AOS ESPÍRITAS LIONESES POR OCASIÃO DO ANO NOVO, Kardec fez um alerta que ecoa até os dias atuais. Disse o Professor Rivail: "Procurai, no Espiritismo, aquilo que vos pode melhorar; eis o essencial. Quando os homens forem melhores, as reformas sociais verdadeiramente úteis serão uma consequência natural."


Pense nisso: nenhuma lei humana, por mais bem-intencionada que seja, transforma o coração humano à força. As leis mudam de cima para baixo, mas a verdadeira justiça só se instala quando a criatura humana se transforma moralmente de dentro para fora.

O político ideal que tanto buscamos lá fora começa a nascer quando nós mesmos nos esforçamos para sermos cidadãos mais justos, honestos e tolerantes no nosso cotidiano.

Portanto, neste período eleitoral, exerça a sua cidadania com plenitude. Vote consciente, estude propostas, use o raciocínio lógico que o Espiritismo nos encoraja a ter, mas mantenha a serenidade.

Não deixe que a paixão política destrua a fraternidade dentro da sua família ou da sua casa espírita. Lembre-se: os governos passam, as bandeiras partidárias mudam, mas o nosso compromisso com a caridade e com a evolução moral é eterno.

Uberaba - MG, 03 de Outubro de 2026

Beto Ramos - Expositor Espírita

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O PARTIDO ESPÍRITA!

  A proposta Espírita é estudar a Doutrina como ciência da observação e como uma Filosofia Moral. Nessa perspectiva, deve fazê-lo com seried...