ESTUDO DA DOUTRINA ESPÍRITA - PARTES 8 E 9


VIII – PERSEVERANÇA E SERIEDADE

Doutrina: conjunto coerente de ideias fundamentais a serem transmitidas, ensinadas; são ideias básicas que compõem um sistema filosófico, político, religioso, etc.

Filosofia: investigação da dimensão essencial e ontológica do mundo real; ultrapassa a OPINIÃO IRREFLETIDA DO SENSO COMUM (cativo da realidade empírica e da aparência sensível – que mais se aproxima do materialismo).

Religião: crença na existência de um poder ou princípio superior, sobrenatural, do qual depende o destino do ser humano e ao qual se deve respeito e obediência.

O estudo da doutrina espírita, conforme ensina Allan Kardec, devem ser efetuados com regularidade e recolhimento necessários. Respostas sensatas são obtidas a partir de perguntas sérias. Respostas complexas carecem de perguntas preliminares ou complementares.

Para adquirir uma ciência deve-se estudar de maneira metódica, partindo-se do princípio e seguindo o encadeamento das ideias. Trocando em miúdos: investigar ao acaso, sem conhecimento prévio das questões rudimentares, não traz resultado satisfatório. Questões despropositais levam a respostas isoladas que podem parecer absurdas e contraditórias.

Quem pretender obter respostas sérias, somente sendo sério em toda a extensão do termo, mantendo-se em condições necessárias, é que poderá atingir seu objetivo, trabalhando muito e perseverando nos estudos. Em tudo estará sendo observado por Espíritos Superiores.

Os Espíritos Superiores não desamparam os que estudam seriamente, trabalham arduamente e perseveram em busca de resultados também sérios e úteis para a humanidade.

IX – MONOPOLIZADORES DO BOM-SENSO

Estamos em pleno século 21, 159 anos após o advento da doutrina dos espíritos, devidamente codificada (ou seria decodificada?) por Allan Kardec. E, ainda, suas observações se fazem atuais. Muitos ainda não superaram as objeções que eram postas naqueles anos de 1857. Vários “comentadores” somente julgam pelo acaso, não separam o joio do trigo e não procuram observar seriamente o Espiritismo.

Seguramente, como na sociedade humana encontramos os bons e os maus, os levianos e os sérios, no mundo espiritual, ao qual atingimos depois da morte física, também encontramos os espíritos atrasados que desencarnaram (ninguém se transforma em gênio depois da morte).

Pior ainda é julgar que todo espírita é um “mistificador”. O termo “espírita” não é marca registrada no INPI. Qualquer pessoa séria ou não poderá fazer uso do termo. Mas, assim como há possibilidade do controle universal das comunicações recebidas dos espíritos, também, podemos fazer o controle universal daquilo que “falam” os ditos “espíritas”. No Espiritismo não há leitura de mão ou mesmo adivinhações.

Ainda hoje, adeptos de outros credos, ou mesmo os incrédulos, tacham os Espíritas de charlatães, mistificadores, “detentores de habilidades especiais’ para o ilusionismo, ou, ignorantes. Para responder a essas críticas “invocamos” Allan Kardec, que nos ensina:

“Os fenômenos em que ela (a doutrina espírita) se apoia são tão extraordinários que concebemos a dúvida, mas não se pode admitir a pretensão de alguns incrédulos ao monopólio de bom-senso, ou que, sem respeito às conveniências e ao valor moral dos adversários, tachem de ineptos a todos os que não concordam com as suas opiniões. Aos olhos de toda pessoa judiciosa, a opinião dos homens esclarecidos que viram determinado fato por longo tempo e o estudaram e meditaram será sempre, uma prova, ou, pelo menos, uma presunção favorável, por ter podido prender a atenção de homens sérios, que não tinham nenhum interesse em propagar erro nem tempo a perder com futilidades”. (KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. São Paulo: LAKE, 2013, pg. 41).

ESTUDO DA DOUTRINA ESPÍRITA - PARTE 7



VII – A CIÊNCIA E O ESPIRITISMO
“Os fatos, eis o verdadeiro critério dos nossos julgamentos, o argumento sem réplica. Na ausência dos fatos, a dúvida é a opinião do homem prudente”. (KARDEC, 1857, pg. 37).

Bem analisado, esse tema é atual, passados quase 160 anos do lançamento de “O Livro dos Espíritos”. Prova disso é que somente no ano de 2013 a revista Neuroendocrinology Letters, volume 34, nº 8, 2013, publicou um artigo científico, cujo tema é a glândula pineal ou epífise, que pode ser acessado no endereço: http://www.nel.edu/archive_issues/o/34_8/34_8_Lucchetti_745-755.pdf, confirmando as informações prestadas pelo Espírito André Luiz no livro “Missionários da Luz” a respeito dessa glândula.

A verdade é que isso não pode ser objeto de comemoração do movimento espírita, uma vez que “a ciência propriamente dita, como ciência, é incompetente para se pronunciar sobre a questão do Espiritismo: não lhe cabe ocupar-se do assunto e seu pronunciamento a respeito, qualquer que seja, favorável ou não, nenhum peso teria” (KARDEC, 1857, pg. 37). 

Isso não quer dizer que estamos a criticar a importante publicação. Pelo contrário, trata-se de relevante trabalho. Contudo, os preconceitos que pairam em torno do assunto não permitem um avanço científico, onde uma aliança da ciência com a religião poderia trazer benefícios incalculáveis para a população de encarnados terrestres.

O Codificador, no livro ora estudado, manifestou-se sobre o preconceito dos “sábios” da seguinte maneira: “no tocante às coisas evidentes, a opinião dos sábios é justamente digna de fé, porque eles as conhecem mais e melhor que o vulgo. Mas no tocante a princípios novos, a coisas desconhecidas, a sua maneira de ver não é mais do que hipotética, porque eles não são mais livres de preconceitos que os outros. Direi mesmo que o sábio terá, talvez, mais preconceitos que qualquer outro, pois uma propensão natural o leva a tudo subordinar, ao ponto de vista de sua especialidade: o matemático não nenhuma espécie de prova senão através de uma demonstração algébrica, o químico relaciona tudo com a ação dos elementos, e assim por diante. Todo homem que se dedica a uma especialidade escraviza a ele as suas ideias. Afastai-o do assunto e ele quase sempre se confundirá, porque deseja tudo submeter ao seu modo de ver; é uma consequência da fragilidade humana” (O Livro dos Espíritos, 2013, pg. 37).

O preconceito também motivou Allan Kardec a publicar no Evangelho Segundo o Espiritismo, no capítulo II, item 5, onde tratou do Ponto de Vista, mostrando os dois lados de encarar a vida futura ou a vida terrena e as consequências desta “cosmovisão”.

Muitas outras pesquisas científicas, cuja base são obras espíritas sérias, poderiam ser divulgadas e levadas a conhecimento geral não fosse o preconceito religioso que a maioria tem de sofrer críticas, comentários jocosos e desairosos. Isso ainda é reflexo de que ainda queremos o aplauso humano em detrimento da glória celeste.

Nunca é demais lembrar que a terra só progride quando um emissário divino é colocado na terra para trazer as revelações de técnicas e tecnologias há muito conhecidas no plano espiritual. Reportemos aqui que muito antes de conhecermos na terra os processos de comunicação usados hoje por meio de celulares, notebook, televisores modernos, etc., bem como o próprio transporte na Colônia Espiritual “Nosso Lar”, André Luiz nos mostrou antecipadamente na sua Coleção de Livros que compõem a Obra psicografada por Francisco C. Xavier denominada “Vida no Mundo Espiritual”.

Indicamos ao nosso leitor que examine detidamente a coletânea mencionada. Se prestar bem atenção aos sinais, verá que as crianças nascidas a partir de 2012/2013 (essa data é apenas para citar proximidade e supor as idades das crianças) usam com a maior facilidade nossa tecnologia, inclusive por meio do toque nas telas para acessar o conteúdo dos aparelhos ora mencionados.

Concluímos com Kardec que disse: “aquilo que chamamos razão é quase sempre orgulho mascarado e quem que se julgue infalível coloca-se como igual a Deus”. (O Livro dos Espíritos, 2013, pg. 39).

ESPIRITISMO: HOMOSSEXUALIDADE


José Humberto da Silva Ramos[1]

RESUMO

Este estudo traz o tema homossexualidade à luz da filosofia espírita, discutindo-o sobre o prisma da dignidade humana e igualdade perante a lei. Pretende aproximar a doutrina espírita e a ciência jurídica. Tem no Estado de Direito Democrático (Constituição Federal) o seu fundamento. A pesquisa, ainda em construção, é fruto do estudo de parte da Obra mediúnica e bibliográfica de Francisco Cândido Xavier, ditadas pelos Espíritos Emmanuel e André Luiz, bem como da codificação Kardequiana. Objetiva servir de orientação para a recepção fraterna e solidária nas casas espíritas de frequentadores com diferentes orientações sexuais, visto o desconhecimento do tema pelo indivíduo humano, do ponto de vista espiritual.

INTRODUÇÃO

Esta pesquisa se orienta pela Filosofia Espiritualista[2] sobre a imortalidade da alma, a natureza dos Espíritos e suas relações com os homens, as leis morais, a vida presente e futura, o porvir da humanidade, de acordo com os ensinamentos dos Espíritos através de discursos de médiuns, recebidos e ordenados por Allan Kardec. Tem como subsídio fundamental a obra ditada ao apóstolo da mediunidade Francisco Cândido Xavier, por seus mentores, os Espíritos Emmanuel e André Luiz.
Entendemos que a homossexualidade, quanto às regras jurídicas brasileiras, não suporta discussões ou interpretações casuísticas, advindas do fundamentalismo ou fanatismo religioso. Por isto, adotando-se o conceito de Direito como conjunto de normas legais e legítimas, postas por meio do devido processo legislativo, que regula as relações sociais no Estado de Direito Democrático, cita-se as seguintes regras constitucionais [3]:
Art. 1º A República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito e tem como fundamentos: (...) III - a dignidade da pessoa humana;
Art. 3º Constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil: I - construir uma sociedade livre, justa e solidária; (...) IV - promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.
Art. 4º A República Federativa do Brasil rege-se nas suas relações internacionais pelos seguintes princípios: (...) II - prevalência dos direitos humanos;
Art. 5º Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, nos termos seguintes: (...) X - são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação;
Nestes termos, independente da convicção religiosa do cidadão, o Brasil adota o modelo legal de igualdade perante a lei, não discriminação de qualquer natureza, erradicação de qualquer forma de preconceitos, a superioridade dos direitos humanos e inviolabilidade íntima. Em resumo, respeito ao livre arbítrio e a consciência individual sem jamais violentá-los.
Vários são os exemplos evangélicos: Madalena, Zaqueu e suas reformas íntimas assimilando a lição verdadeira e o mesmo Mestre respeitando a Pilatos, Herodes, Caifás. Contudo, no movimento espiritista deparam-se por vezes com atitudes menos dignas afastadas do ensinamento de Jesus sobre amor ao próximo por meio da parábola do Samaritano. Como fizera o sacerdote da parábola, o próximo ainda é uma incógnita para muitos. A advertência para não julgar, torna-se figura de linguagem nos discursos, sem presença diária nas ações.
Como demonstrado, esse artigo não pretende discutir homossexualidade como objeto de conceituação científica, antropológica, social ou jurídica. A título de informação, verifica-se que em 1990, a Assembleia Geral da Organização Mundial da Saúde (OMS) retirou a homossexualidade de sua lista de doenças mentais (Classificação Internacional de Doenças - CID) e, em 1991 a Anistia Internacional passou a considerar a discriminação contra homossexuais uma violação aos direitos humanos.
Opta-se pelo termo homossexualidade em detrimento de homossexualismo, pois, o sufixo ‘ismo’, de origem grega, poderia denotar “condição patológica”, ou mesmo indicar “doutrina, escola, teoria ou princípio artístico, filosófico, político ou religioso”, e, não é objetivo deste estudo violar consciências, mas, lembrar nossa igualdade perante a lei humana (brasileira), e, principalmente perante Deus.

 1. SEXO NOS ESPÍRITOS[4]

                    Com este título, o capítulo IV, que trata da Pluralidade das Existências, no Livro dos Espíritos, na pergunta número 200 formulada por Allan Kardec, indica a ignorância do indivíduo humano, espírito encarnado, acerca do assunto. Vejamos pergunta e resposta:    
200. Os Espíritos têm sexo?
- Não como o entendeis, porque os sexos dependem da constituição orgânica. Há entre eles amor e simpatia, mas baseados na afinidade de sentimentos.

E prossegue o Codificador:
201. O Espírito que animou o corpo de um homem pode animar o de uma mulher, numa nova existência, e vice-versa?
- Sim, pois são os mesmos Espíritos que animam os homens e as mulheres.

202. Quando somos Espíritos, preferimos encarnar num corpo de homem ou de mulher?
- Isso pouco importa ao Espírito; depende das provas que ele tiver de sofrer.

Os Espíritos encarnam-se homens ou mulheres, porque não tem sexo. Como devem progredir em tudo, cada sexo, como cada posição social, oferece-lhes provas e deveres especiais, e novas ocasiões de adquirir experiências. Aquele que fosse sempre homem, só saberia o que sabem os homens.

Analisando pergunta e resposta, deve-se ter atenção para duas situações: quem pergunta refere-se ao Espírito, mas, o pensamento concreto, isto é, o assunto (sexo) é exemplificado com o modelo conhecido: sexo do corpo humano (da constituição orgânica).
Os Espíritos respondem que o sexo é entendido na Terra como constituição orgânica, e que esse entendimento é insuficiente.  Portanto, no corpo humano é de uma forma e nos Espíritos será algo não compreendido pela inteligência humana. Além disto, a representação corporal/orgânica (homem ou mulher) está ligada às provas que o Espírito tenha de sofrer, pouco importando o gênero.

 2. HOMOSSEXUALIDADE E DOUTRINA ESPÍRITA

2.1. OBRA SEXO E DESTINO
Ensinaram os Espíritos Superiores que o indivíduo humano não poderá tomar por régua a sua compreensão acerca da constituição orgânica (ponto de vista físico) quando se referir a sexo dos Espíritos. Inclusive, afirmaram (questão 23.a do Livro dos Espíritos) que não é fácil analisar o espírito na linguagem humana.
Na obra mediúnica de Francisco Cândido Xavier Sexo e Destino[5], o Espírito explica que também se surpreendera, a princípio, com o respeito profundo ali (mundo espiritual) dedicado aos estudos do sexo, em vista da desconsideração com que autoridades políticas, religiosas e sociais terrestres habitualmente o menoscabam. O expositor faz dura crítica à humanidade ao declarar que nos arvoramos em querer “substituir” a Deus no direito de socorrer e reabilitar os seus filhos.
Parecendo explicar as perguntas 200 a 202 do Livro dos Espíritos de Allan Kardec, prossegue o benfeitor na obra citada explicando que na Espiritualidade Superior o sexo não é considerado unicamente por baliza morfológica (forma) do corpo de carne, distinguindo macho e fêmea, definição unilateral que, na Terra, ainda se faz seguir de atitudes e exigências tirânicas, herdadas do comportamento animal, esclarecendo que:
Entre os Espíritos desencarnados, a partir daqueles de evolução mediana, o sexo é categorizado por atributo divino na individualidade humana, qual ocorre com a inteligência, com o sentimento, com o raciocínio e com faculdades outras, até agora menos aplicadas nas técnicas da experiência humana. Quanto mais se eleva a criatura, mais se capacita de que o uso do sexo demanda discernimento pelas responsabilidades que acarreta. Qualquer ligação sexual, instalada no campo emotivo, engendra sistemas de compensação vibratória, e o parceiro que lesa o outro, até o ponto em que suscitou desastres morais consequentes, passa a responder por dívida justa. Todo desmando sexual que danifica consciências reclama corrigenda, tanto quanto qualquer abuso do raciocínio.[6]

Kardec, no Código Penal da Vida Futura do Espírito[7], mostra que a natureza dos sofrimentos e dificuldades experimentados expõe uma ideia das faltas cometidas em existência anterior e quais imperfeições que as causaram, isto é, qualquer posição assumida na condição de Espírito encarnado será o reflexo das anteriores.
Ao seu turno, a obra Sexo e Destino, ditada pelo Espírito André Luiz[8], expõe a fragilidade e a ausência de conhecimento dos espíritos encarnados na crosta planetária, onde:
[...] os temas sexuais são levados em conta na base dos sinais físicos que diferenciam o homem da mulher e vice-versa; no entanto, ponderou que isso não define a realidade integral, porquanto, regendo esses marcos, permanece um Espírito imortal, com idade às vezes multimilenaria, encerrando consigo a soma de experiências complexas, o que obriga a própria Ciência terrena a proclamar, presentemente, que masculinidade e feminilidade totais são inexistentes na personalidade humana, do ponto de vista psicológico. Homens e mulheres, em espírito, apresentam certa percentagem mais ou menos elevada de característicos viris e feminis em cada indivíduo, o que não assegura possibilidades de comportamento íntimo normal para todos, segundo a conceituação de normalidade que a maioria dos homens estabeleceu para o meio social.

Na mesma obra mediúnica, formula-se consulta a respeito da homossexualidade, cuja resposta é a seguinte:
[...] inúmeros Espíritos reencarnam em condições inversivas, seja no domínio das lides expiatórias, ou em obediência a tarefas específicas, que exigem duras disciplinas por parte daqueles que as solicitaram ou que as aceitaram. Referiu ainda que homens e mulheres podem nascer homossexuais ou intersexos, como são suscetíveis de retomar o veículo físico na condição de mutilados ou inibidos em certos campos de manifestação, aditando que a alma reencarna, nessa ou naquela circunstância, para melhorar e aperfeiçoar-se, e nunca sob a destinação do mal, o que nos constrange reconhecer que os delitos, sejam quais sejam, em quaisquer posições, correm por nossa conta[9].

Observando que:
[...] nos foros da Justiça divina, em todos os distritos da Espiritualidade superior, as personalidades humanas tachadas por anormais são consideradas tão carecentes de proteção quanto as outras que desfrutam a existência garantida pelas regalias da normalidade, segundo a opinião dos homens, observando-se que as faltas cometidas pelas pessoas de psiquismo julgado anormal são examinadas no mesmo critério aplicado às culpas de pessoas tidas por normais, notando-se, ainda, que, em muitos casos, os desatinos das pessoas supostas normais são consideravelmente agravados, por menos justificáveis perante acomodações e primazias que usufruem, no clima estável da maioria[10].

Sobre preceitos e preconceitos vigentes na Terra, consulta formulada pelo Espírito André Luiz, o benfeitor pondera que os homens:
[...] não podem efetivamente alterar, de chofre, as leis morais em que se regem, sob pena de precipitar a Humanidade na dissolução, entendendo-se que os Espíritos ainda ignorantes ou animalizados, por enquanto em maioria no seio de todas as nações terrestres, estão invariavelmente decididos a usurpar liberalidades prematuras para converter os valores sublimes do amor em criminalidade e devassidão[11].

Quanto ao porvir do planeta Terra, enfatiza o Espírito que os irmãos reencarnados nas condições julgadas normais ou anormais serão tratados em pé de igualdade, no mesmo nível de dignidade humana, reparando-se as injustiças cometidas há séculos:
[...] porquanto a perseguição e a crueldade com que são batidos pela sociedade humana lhes impedem ou dificultam a execução dos encargos que trazem à existência física, quando não fazem deles criaturas hipócritas, com necessidade de mentir incessantemente para viver, sob o Sol que a Bondade divina acendeu em benefício de todos[12].


Pela clareza com que cada ideia é exposta, o local e a época que cada uma foi produzida, forçoso reconhecer o perfeito encadeamento das mesmas, seja no trabalho realizado por Allan Kardec, seja pelo Apóstolo da Mediunidade Francisco C. Xavier.

2.2. OBRA EVOLUÇÃO EM DOIS MUNDOS[13]
O Espírito André Luiz traz importante lição sobre as consequências da ingerência humana na esfera dos destinos acerca do tema determinação de sexo pela ciência humana e sua atuação no início da gestação:
[...] semelhante ingerência na esfera dos destinos humanos traria consequências imprevisíveis à organização moral entre as criaturas, porque essa atuação indébita se verificaria apenas no campo morfológico, impondo, talvez inversões desnecessárias e imprimindo graves complicações ao foro íntimo de quantos fossem submetidos a tais processos de experimentação, positivamente contrários à inteligência da vida que reflete a sabedoria de Deus[14].

 Tal argumentação nos possibilita avançar na reflexão. Se a intervenção científica é ingerência contrária à inteligência Divina, o julgamento moral sem baliza da caridade, respeito mútuo, fundado no fanatismo e no fundamentalismo se trata, também, de ingerência a essa mesma inteligência. A história está repleta de provas do que causaram esses supostos códigos morais. Recordando o velho Einstein é loucura querer resultados diferentes fazendo tudo exatamente igual. Portanto, a régua usada para medir o outro não pode ser próprio indivíduo “juiz”, por vezes falido e “caído” neste orbe terrestre.
Destarte, nas palavras do Divino Mestre, sendo o homem mais ingênuo que perverso, cumpre-nos ir em direção à luz. E a treva em que sustentamos nossa ignorância encontra pontos iluminados na obra mediúnica que nos propõe saber onde é a sede sexual, a origem do instinto sexual e se o sexo é mental ou carnal. Segue a lição trazida do mundo espiritual por André Luiz:
[...] Compreendemos, pois, que o sexo reside na mente, a expressar-se no corpo espiritual, e consequentemente no corpo físico, por santuário criativo de nosso amor perante a vida, e, em razão disso, ninguém escarnecerá dele, desarmonizando-lhe as forças, sem escarnecer e desarmonizar a si mesmo.[15] [...] A sede real do sexo não se acha, dessa maneira, no veículo físico, mas sim na entidade espiritual, em sua estrutura complexa.[16]

Origem do instinto sexual - Todas as nossas referências a semelhantes peças do trabalho biológico, nos reinos da Natureza, objetivam simplesmente demonstrar que, além da trama de recursos somáticos, a alma guarda a sua individualidade sexual intrínseca, a definir-se na feminilidade ou na masculinidade, conforme os característicos acentuadamente passivos ou claramente ativos que lhe sejam próprios[17]. [...] E o instituto sexual, por isso mesmo, [...] por ele, as criaturas transitam de caminho a caminho, nos domínios da experimentação multifária, adquirindo as qualidades de que necessitam; com ele, vestem-se da forma física, em condições anômalas, atendendo a sentenças regeneradoras na lei de causa e efeito ou cumprindo instruções especiais com fins de trabalho justo[18].
O sexo é, portanto, mental em seus impulsos e manifestações, transcendendo quaisquer impositivos da forma em que se exprime, não obstante reconhecemos que a maioria das consciências encarnadas permanecem seguramente ajustadas à sinergia mente-corpo, em marcha para mais vasta complexidade de conhecimento e emoção[19].

Transcendendo os impositivos da forma, o sexo supera os limites do corpo físico, sendo que o ajustamento de mente-corpo em cooperação e trabalho associado ocorre na maioria das consciências encarnadas, mas não na totalidade, vez que as sentenças regeneradoras obedecem à lei de causa e efeito ou os Espíritos cumprem instruções especiais de trabalho justo. Impossível julgar o irmão homossexual, não somente pelo absoluto desconhecimento de seu plano reencarnatorio, mas, em razão de que cada indivíduo existe pela permissão Divina.

3. O CONSOLADOR[20]

Pede-nos atenção a questão formulada ao Espírito Emmanuel na obra mediúnica ditada ao médium Francisco Cândido Xavier, reproduzida a seguir:
331. Como devemos interpretar a sentença: “Há eunucos que se castram a si mesmos, por causa do Reino dos céus”?
- Almas existem que, para obterem as sagradas realizações de Deus em si próprias, entregam-se a labores de renúncia, em existência de santificada abnegação. Nesse mister, é comum abdicarem transitoriamente as ligações humanas, de modo a acrisolarem os seus afetos e sentimentos em vidas de ascetismo e de longas disciplinas materiais. Quase sempre, os que na Terra se fazem eunucos para os Reinos do céu, agem de acordo com os dispositivos sagrados de missões redentoras, nas quais, pelo sacrifício e pela dedicação, se redimem entes amados ou alma gêmea da sua, exilados nos caminhos expiatórios. Numerosos Espíritos recebem de Jesus permissão para esse gênero de esforços santificantes, porquanto, nessa tarefa os que se fazem eunucos, pelos Reinos do Céu, precipitam os processos de redenção do ser ou dos seres amados, submersos das provas e simultaneamente, pela sua condição de evolvidos, podem ser mais facilmente transformados, na Terra, em instrumentos da verdade e do bem, redundando o seu trabalho em benefícios inestimáveis para os entes queridos, para a coletividade e para si próprios.

Não podendo vasculhar a mente dos encarnados, desconhecendo o planejamento reencarnatorio de cada qual, como estudante, pensamos que o desejo universal, ainda que inconsciente, é atingir a pureza espiritual, burilar a alma. Na senda de cada qual, lógico é o desejo de avançar nesse caminho. Assim, castram-se desejos, sentimentos, sensações, ideias, vontades, paixões e amores, onde sacrifício, dedicação e renúncia será a missão redentora dos exilados nos caminhos expiatórios. Então, é possível pensar em nossos semelhantes vindo para a Terra se fazendo eunucos, castrando a mente (sede do sexo) e não o corpo para o Reino do Céu.
Dado o aspecto educativo de nosso planeta, como ocorre com qualquer outro indivíduo em questões muito menos complexas, pode-se estacionar, concluir ou falhar na prova, tarefa ou expiação. Nesse diapasão, lembremos do Espírito Polux[21], cujo desejo era cumprir suas tarefas redentoras, todavia, reencarnado como Carlos, faliu uma vez mais.

CONCLUSÃO

O Estudo não esgota o tema. Seguro de não possuir o brilhantismo da pena de Humberto de Campos, a síntese de Emmanuel e o discernimento de André Luiz, espera-se reflexão acerca do propósito trabalhado: transformar as casas espíritas em templos do Cristianismo Redivivo, na ideia bíblica de que se trata de uma Casa de Oração para Todas as Nações.
Sendo a mente a sede do sexo e o corpo uma expressão morfológica que o apresenta por sinais exteriores, o indivíduo humano, carecedor de conhecimento para compreender sexo do ponto de vista do Espírito, deve enxergar a homossexualidade como todas as outras experiências de experimentação multifárias que encontra amparo no mesmo Sol que a Divina bondade ascendeu em benefício de todos[22].

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[1] Articulista Espírita, Advogado no Estado de Minas Gerais e Professor Universitário.
[2] KARDEC, Allan. Trad. PIRES, J. Herculano. Livro dos Espíritos. São Paulo: LAKE, 2013.
[3] TÁCITO, Caio. Constituições Brasileiras: 1988. Vol. VII. Brasília: Senado Federal, 1999.
[4] KARDEC, Allan. Trad. PIRES, J. Herculano. Livro dos Espíritos. São Paulo: LAKE, 2013.
[5] XAVIER, Francisco Cândido; VIEIRA, Waldo. Sexo e Destino. Ditado pelo Espírito André Luiz. Brasília: FEB. 2013. Cap. 9, 2ª Parte – pg. 278/281.
[6] XAVIER, Francisco Cândido; VIEIRA, Waldo. Sexo e Destino. Ditado pelo Espírito André Luiz. Brasília: FEB. 2013. Cap. 9, 2ª Parte – pg. 278/281.
[7] KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno. São Paulo: LAKE, 2007.
[8] XAVIER, Francisco Cândido; VIEIRA, Waldo. Sexo e Destino. Ditado pelo Espírito André Luiz. Brasília: FEB. 2013. Cap. 9, 2ª Parte – pg. 278/281.
[9] XAVIER, Francisco Cândido; VIEIRA, Waldo. Sexo e Destino. Ditado pelo Espírito André Luiz. Brasília: FEB. 2013. Cap. 9, 2ª Parte – pg. 278/281.
[10] XAVIER, Francisco Cândido; VIEIRA, Waldo. Sexo e Destino. Ditado pelo Espírito André Luiz. Brasília: FEB. 2013. Cap. 9, 2ª Parte – pg. 278/281
[11] XAVIER, Francisco Cândido; VIEIRA, Waldo. Sexo e Destino. Ditado pelo Espírito André Luiz. Brasília: FEB. 2013. Cap. 9, 2ª Parte – pg. 278/281
[12] XAVIER, Francisco Cândido; VIEIRA, Waldo. Sexo e Destino. Ditado pelo Espírito André Luiz. Brasília: FEB. 2013. Cap. 9, 2ª Parte – pg. 278/281
[13] XAVIER, Francisco Cândido; VIEIRA, Waldo. Evolução em Dois Mundos. Ditado pelo Espírito André Luiz. Brasília: FEB. 2013.
[14] XAVIER, Francisco Cândido; VIEIRA, Waldo. Evolução em Dois Mundos. Ditado pelo Espírito André Luiz. Brasília: FEB. 2013, pg. 213.
[15] XAVIER, Francisco Cândido; VIEIRA, Waldo. Evolução em Dois Mundos. Ditado pelo Espírito André Luiz. Brasília: FEB. 2013, pg. 149.
[16] XAVIER, Francisco Cândido; VIEIRA, Waldo. Evolução em Dois Mundos. Ditado pelo Espírito André Luiz. Brasília: FEB. 2013, pg. 144/145.
[17] XAVIER, Francisco Cândido; VIEIRA, Waldo. Evolução em Dois Mundos. Ditado pelo Espírito André Luiz. Brasília: FEB. 2013, pg. pg. 144/145.
[18] XAVIER, Francisco Cândido; VIEIRA, Waldo. Evolução em Dois Mundos. Ditado pelo Espírito André Luiz. Brasília: FEB. 2013, pg. pg. 144/145.
[19] XAVIER, Francisco Cândido; VIEIRA, Waldo. Evolução em Dois Mundos. Ditado pelo Espírito André Luiz. Brasília: FEB. 2013, pg. pg. 144.
[20] XAVIER, Francisco Cândido. O Consolador. Ditado pelo Espírito Emmanuel. Brasília: FEB. 2013.
[21] XAVIER, Francisco Cândido. Renúncia. Ditado pelo Espírito Emmanuel. Brasília: FEB. 2013.
[22] XAVIER, Francisco Cândido; VIEIRA, Waldo. Sexo e Destino. Ditado pelo Espírito André Luiz. Brasília: FEB. 2013. Cap. 9, 2ª Parte – pg. 278/281

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REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno. São Paulo: LAKE, 2007.
KARDEC, Allan. Trad. PIRES, J. Herculano. Livro dos Espíritos. São Paulo: LAKE, 2013.
TÁCITO, Caio. Constituições Brasileiras: 1988. Vol. VII. Brasília: Senado Federal, 1999.
XAVIER, Francisco Cândido. O Consolador. Ditado pelo Espírito Emmanuel. Brasília: FEB. 2013.
XAVIER, Francisco Cândido; VIEIRA, Waldo. Evolução em Dois Mundos. Ditado pelo Espírito André Luiz. Brasília: FEB. 2013
XAVIER, Francisco Cândido; VIEIRA, Waldo. Sexo e Destino. Ditado pelo Espírito André Luiz. Brasília: FEB. 2013.



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