O LIVRO DOS ESPÍRITOS – PARTE 71



– CAPÍTULO VIII –

– EMANCIPAÇÃO DA ALMA 

 – VI ÊXTASE –

(Questões: 439 a 446)


A alma (Espírito Encarnado) poderá emancipar-se (desprender-se ou libertar-se, por assim dizer, por algum tempo, do corpo físico) através, também, do êxtase, que é um sonambulismo mais apurado, uma vez que a alma do extático é mais independente.


Diz-se “mais independente” em razão da compreensão mais clara do mundo espiritual que o extático tem. Ele vê e compreende o que vê no plano espiritual. Essa sensação lhe desperta o desejo de permanecer no mundo espiritual.

A independência tratada neste tópico não chega a ser um “trânsito livre” para o Espírito no plano espiritual. Há lugares que o extático não tem acesso, pois, disto depende o grau de depuração do Espírito. É possível que experimente uma sensação de felicidade que mova a se esforçar para romper os laços que o prendem ao planeta.

É por tal motivo que o extático não pode ser abandonado a si mesmo durante o transe. Corre-se risco de morte. É necessário ter atenção para estimular o Espírito do extático a retornar ao mundo material em que ainda deve atuar, fazendo-o ver que romper os laços por vontade própria e causar a morte do corpo físico será a maneira que NÃO LHE PERMITIRÁ FICAR NO LUGAR ONDE SE VÊ. Aguardar o termo certo da experiência terrena é o único caminho para retornar ao lugar onde teve a sensação de felicidade plena.

Para lidar-se com as informações transmitidas pelo extático é preciso lógica, razoabilidade e bom-senso. O extático age sob a influência de ideias terrenas, vê as coisas à sua maneira, exprime-se na linguagem conforme seus preconceitos e ideias em que foi criado, ou, ainda, pode exprimir-se conforme os preconceitos de quem está orientando o trabalho. Sabendo disto fica fácil compreender que o extático poderá errar.

Não é permitido aos seres tudo conhecer. Existem mistérios que são impenetráveis para o homem. Aquele que quiser penetrar para além desses limites será abandonado às suas próprias ideias, ou, o que é pior, se tornar joguete de Espíritos enganadores que se aproveitarão para fasciná-lo.

A experiência dos fenômenos de sonambulismo e de êxtase abre uma porta para antever a vida passada e a vida futura. Deste modo é possível encontrar nestes fenômenos, desde que seriamente estudados, a solução de mais de um mistério que o ser humano busca penetrar somente por meio da razão (considerada a ciência puramente material). Quem estuda tais fenômenos com boa-fé e livre de preconceitos, certamente não pode ser materialista nem ateu.

EXISTEM ESPÍRITOS?


NOÇÕES PRELIMINARES PARA ESTUDO DO ESPIRITISMO


 Antes de aceitarmos qualquer discussão espírita, temos de nos assegurar se o interlocutor admite a base sobre a qual está todo o edifício do Espiritismo, qual seja: a existência de Deus e da Alma. Não nos cabe forçar essa crença, eis que a vontade é individual e autônoma.

Para tanto, a esses interlocutores, são necessárias algumas perguntas iniciais para delimitar o campo da discussão, quais sejam:
 a) Crê em Deus?
    b) Crê na existência da Alma?
    c) Crê na sobrevivência da Alma após a morte?

Tais questões devem obter respostas positivas, sem as quais seria inútil prosseguir numa discussão comparável a tentar demonstrar as propriedades da luz a um cego que não admitisse a existência da luz.


EXISTEM ESPÍRITOS?
1.Os Espíritos não são seres a parte na criação e sua existência decorre, necessariamente, do fato de haver um princípio inteligente no Universo, além da matéria.

 2.O Espiritualismo em geral nos oferece a demonstração teórica dogmática da existência, sobrevivência e individualidade da alma, o que o Espiritismo demonstrou pelos experimentos.

 3. Pelo método indutivo do raciocínio, partindo da premissa que a alma existe e sua individualidade permanece após a morte, tem-se:
a) Ao separar-se do corpo a alma não conserva as propriedades materiais, portanto, sua natureza é diferente da corpórea;
b) Sendo feliz ou sofredora, a alma possui consciência própria e não é um ser inerte do qual nada valeria sua existência;
c) Se há consciência vai para algum lugar, que, segundo a crença comum é o Céu ou o Inferno, mas, o Espiritismo não é compatível com essa teoria;
d) O Céu ou o Inferno deveria estar circunscrito em algum lugar, mas, no Universo não há como conceituar alto e baixo, uma vez que os orbes são redondos, os astros giram e o alto e baixo se revezam de tempo em tempo, sendo desconhecido o infinito do espaço que possui distâncias incomensuráveis;
e) A razão não admite a inutilidade do infinito, que leva a crer serem os demais mundos também habitados;
f) A doutrina da localização das almas e os dados das ciências não concordam entre si, o que conduz a uma doutrina mais lógica que lhes dá o espaço infinito, isto é, todo um mundo invisível que nos envolve e no meio do qual vivemos rodeados por elas.

 4. A ideia das penas e recompensas, uma vez que as almas não vão para locais determinados, é absurda. Ao contrário de penarem ou gozarem em determinado lugar, carregam no seu íntimo a felicidade ou a desgraça, pois, a sorte de cada uma depende de sua condição moral.

 5. O progresso das almas depende dos esforços que fazem para melhorarem e, depois das provas necessárias, podem atingir os graus mais elevados. Portanto, os anjos, mensageiros de Deus, são almas humanas que chegaram ao grau supremo e todos podem chegar até lá através da Boa Vontade.

 6. Essas almas purificadas, chegadas ao grau supremo, são incumbidas por Deus de zelar pela execução de seus desígnios em todo o Universo.

 7. Com isto, ter uma condição útil e aceitável após a morte é uma teoria mais atraente que a inutilidade perpétua da contemplação eterna.

OS DEMÔNIOS
 8. São almas das criaturas más, ainda não depuradas, mas, que podem chegar como as outras, ao estado de pureza. Tal situação está em pleno acordo com a Justiça e Bondade de Deus e em conformidade com a razão, a lógica e o bom-senso.

ESPÍRITOS
 9. As almas são os Espíritos encarnados revestidos do invólucro corporal (corpo de carne), enquanto que os Espíritos que povoam o Universo infinito também são almas humanas, mas, desprovidas (despojadas) da roupagem material (corpo de carne).

 10. Admitir-se a existência das almas é o mesmo que admitirem-se os Espíritos. Estando as almas por toda parte, os Espíritos também estão. Negar um é negar o outro.

AÇÃO SOBRE A MATÉRIA / MANIFESTAÇÕES ESPÍRITAS
 11. Os Espíritos não são seres abstratos, vagos e indefinidos. Na sua união com o corpo, o Espírito é o elemento principal da união, pois é o ser pensante e que sobrevive à morte.

 12. O corpo é um acessório do Espírito, um invólucro, uma roupagem que abandona depois de usar.

 13. Além do envoltório material, o Espírito possui outro, semimaterial, que o liga ao primeiro. 

 14. Na morte o Espírito abandona o corpo, mas, não o segundo envoltório, que é chamado de perispírito.

 15. O perispírito, que tem a mesma forma humana do corpo, é uma espécie de corpo fluídico, vaporoso, invisível para o sentido humano quando se encontra em seu estado normal, mas, possui ainda algumas propriedades da matéria.

 16. O Espírito é um ser limitado e circunscrito, ao qual falta ser visível e palpável para assemelhar-se às criaturas humanas.

 17. Como os demais fluídos rarefeitos, tal qual a eletricidade, o Espírito, constituído de uma substância sutil e dirigido pela vontade, é uma força motriz que age sobre a matéria.

 18.O Espírito encarnado age sobre a matéria do seu corpo dirigindo-lhe os movimentos corporais.

 19. Como o mudo serve-se de uma pessoa que fala para fazer-se compreender, assim o Espírito desencarnado serve-se de outro corpo, em acordo com o Espírito nele encarnado, para manifestar o seu pensamento.

  20. Partindo-se do princípio da existência da alma e sua sobrevivência após a morte, considera-se que o ser pensante durante a vida terrena continua pensando após a morte; Pensa naqueles que amou e deseja se comunicar com eles; Está por toda parte e ao nosso lado, comunicando-se conosco.

 21. O Espírito age sobre a matéria inerte por intermédio de seu corpo fluídico, assim como age sobre a matéria de um ser vivo, inclusive, dirigindo-lhe a mão para fazê-lo escrever, além de lhes responder questões pela transmissão do pensamento.

 Fonte:
KARDEC, Allan. O Livro dos Médiuns. (Primeira Parte, Noções Preliminares, Capítulo I - Existem Espíritos?).  LAKE: São Paulo, 2013.

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