A proposta Espírita é estudar a Doutrina como ciência da observação e como uma Filosofia Moral. Nessa perspectiva, deve fazê-lo com seriedade, racionalidade e à luz das obras de Allan Kardec.
Estamos em plena época de eleições. Ruas tomadas por
bandeiras, redes sociais polarizadas, discussões acirradas na família, no
trabalho e até dentro das redes sociais espíritas. Candidatos prometem o
paraíso, eleitores cobram milagres, e o clima de divisão parece constante.
Mas afinal, o que o Espiritismo tem a dizer sobre isso? Allan Kardec, o organizador do
Espiritismo, falou sobre política, voto ou escolha de representantes? O Centro
Espírita deve tomar partido?
O Espiritismo é Neutro, mas não indiferente. Nossa primeira grande construção
histórica é que não existe um "partido espírita".
Em julho de 1868, na Revista Espírita, NO ARTIGO
INTITULADO ‘O PARTIDO ESPÍRITA’, o próprio Allan Kardec respondeu a
acusações de que o Espiritismo seria uma facção política disfarçada.
E ele foi categórico afirmando desde logo que “o Espiritismo é uma doutrina de moral e de livre pensamento”. Ele une os homens pela comunhão de ideias espirituais e morais, E NUNCA pelas disputas do poder temporal.
Para quem acha que isso é invenção moderna, vale lembrar que no capítulo 30 de O Livro dos Médiuns, ao redigir o regulamento da Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas, NO SEU ARTIGO PRIMEIRO, Capítulo I, Fins e Constituição da Sociedade, o organizador do Espiritismo proibiu expressamente discussões políticas e sectárias dentro da instituição.
E aqui importa um ALERTA! O Centro Espírita é um porto
seguro de consolo e estudo. Quando deixamos a política partidária entrar nos
nossos debates internos, trocamos a busca pelo sopro espiritual pelas querelas
da Terra.
É imprescindível analisar a raiz dos Governos e o Voto sob a ótica
moral e buscar um APROFUNDAMENTO FILOSÓFICO: se Kardec diz para não misturar Espiritismo com
partido, significa que o espírita deve ser omisso ou não votar?
De jeito nenhum! A resposta está na Terceira Parte de O
Livro dos Espíritos, nas questões sobre a Lei de Sociedade e a Lei
de Progresso. Quando questionado sobre as formas de governo (monarquia,
república, democracia), a Espiritualidade Superior ensina a Kardec uma máxima
lapidar: Os povos têm os governos que merecem.
Como exemplo, pensemos criticamente: um povo egoísta, corrupto na pequena
esfera do dia a dia, que busca vantagens fáceis, elegerá naturalmente
representantes que refletem exatamente esses mesmos vícios.
A política não surge do nada; ela é o termômetro moral da
sociedade. Então, qual é o PAPEL DO VOTO? para o espírita, o voto
não é um ato banal ou puramente emocional. É um ato de responsabilidade
moral. Quando votamos, escolhemos quem administrará os recursos coletivos e
influenciará a vida de milhares de irmãos.
Por isso, a escolha do representante deve passar pelo crivo
da razão, da ética, da honestidade e do compromisso com o bem comum — e nunca
por fanatismo ideológico ou interesses puramente pessoais.
É preciso buscar a verdadeira Reforma Social. A nossa mensagem central perpassa
pela reflexão profunda: muitas vezes, caímos na ilusão de que o salvador da
pátria virá das urnas para resolver todos os problemas estruturais de uma nação
por passe de mágica.
Em fevereiro de 1862, escrevendo aos espíritas de Lyon, no
artigo intitulado RESPOSTA DIRIGIDA AOS ESPÍRITAS LIONESES POR OCASIÃO DO
ANO NOVO, Kardec fez um alerta que ecoa até os dias atuais. Disse o Professor
Rivail: "Procurai, no Espiritismo, aquilo que vos pode melhorar; eis
o essencial. Quando os homens forem melhores, as reformas sociais
verdadeiramente úteis serão uma consequência natural."
Pense nisso: nenhuma lei humana, por mais bem-intencionada que seja,
transforma o coração humano à força. As leis mudam de cima para baixo,
mas a verdadeira justiça só se instala quando a criatura humana se
transforma moralmente de dentro para fora.
O político ideal que tanto buscamos lá fora começa a nascer
quando nós mesmos nos esforçamos para sermos cidadãos mais justos, honestos e
tolerantes no nosso cotidiano.
Portanto, neste período eleitoral, exerça a sua cidadania com
plenitude. Vote consciente, estude propostas, use o raciocínio lógico que o
Espiritismo nos encoraja a ter, mas mantenha a serenidade.
Não deixe que a paixão política destrua a fraternidade dentro
da sua família ou da sua casa espírita. Lembre-se: os governos passam,
as bandeiras partidárias mudam, mas o nosso compromisso com a caridade e com
a evolução moral é eterno.
Uberaba - MG, 03 de Outubro de 2026
Beto Ramos - Expositor Espírita
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