Se você frequenta o movimento espírita hoje, ou acompanha as redes sociais, com certeza já presenciou essa cena. De um lado, um grupo afirma com toda a certeza do mundo: "O Espiritismo é de Direita! Afinal, Kardec defendia a propriedade privada, era contra revoluções violentas e combatia o materialismo do comunismo." Do outro lado, no mesmo centro espírita, outro grupo responde com o mesmo vigor: "De jeito nenhum! O Espiritismo é de Esquerda! Veja o foco na justiça social, na igualdade entre homens e mulheres, no combate à miséria e na caridade universal."
Essa divisão virou uma
verdadeira queda de braço que afasta pessoas, divide instituições e, pior de
tudo, cria uma polarização que simplesmente não faz sentido dentro da obra de
Allan Kardec. Se você já se pegou no meio desse fogo cruzado, ou se tem
aquela dúvida sincera sobre qual seria o posicionamento político ideal de um
espírita, este texto é para você. Mas, prepare-se, o que a história e a Filosofia
Espírita nos revelam vai quebrar as expectativas de ambos os lados.
Vamos mergulhar direto nos
fatos, no contexto do século dezenove e nas palavras exatas dos Espíritos
Superiores para responder, de uma vez por todas: O Espiritismo é de Esquerda ou
de Direita? Se você gosta de reflexões profundas, com base doutrinária sólida e
sem fugir dos grandes debates do nosso tempo, vem comigo.
Antes de abrirmos as obras de Kardec, nós precisamos dar um passo atrás e entender do que nós estamos falando. Afinal de contas, de onde nasceram essas palavras, "Esquerda" e "Direita"? Para descobrir isso, nós temos que viajar no tempo e voltar até a Revolução Francesa, no final do século dezoito.
Imagine o cenário: o Parlamento francês estava reunido para decidir o futuro do
país. No centro da grande sala, sentava-se o Rei.
À direita do Rei, ficava a
bancada dos Lordes, da alta aristocracia e dos representantes da Igreja. O
papel desse grupo era muito claro: manter o status quo. Ou seja,
defender os privilégios de nascença, a autoridade do monarca e garantir que as
coisas ficassem exatamente como estavam, independente do sofrimento ou da
miséria em que o povo vivia. Daí nasceu o conceito de Direita: a ala
conservadora, ligada à preservação dos privilégios das elites e do poder
estabelecido.
Por outro lado, sentados à
esquerda do Rei, ficavam os chamados "Comuns". Quem eram eles? Eram
os representantes do povo, da classe trabalhadora e da burguesia nascente. Esse
grupo debatia e lutava por mudanças estruturais, pela melhoria das condições de
vida da população e pela quebra dos privilégios da nobreza. Daí nasceu o
conceito de Esquerda: a ala progressista, focada na transformação social e nos
direitos das classes populares.
Agora guarde bem essa imagem
mental: de um lado, os Lordes preservando riquezas; do outro, os Comuns
exigindo justiça. Quando Allan Kardec começou a publicar os Livros e a Revista
Espírita, em 1857/58, a Europa estava em plena ebulição por causa dessas duas
visões, que já tinham evoluído para teorias bem mais complexas. E para entender
por que o Espiritismo não se encaixa em nenhuma dessas caixas, nós precisamos
analisar como Kardec e os Espíritos trataram cada uma delas. Vamos começar pela
Esquerda da época.
No século dezenove, a Esquerda
europeia dividia-se essencialmente em duas grandes correntes que tentavam
resolver a miséria gerada pela Revolução Industrial. A primeira era o Socialismo
Utópico, defendido por nomes como Saint-Simon, Fourier e Cabet. Eles
propunham criar comunidades cooperativas perfeitas e autossuficientes, onde
tudo fosse compartilhado e o trabalho fosse voluntário e pacífico.
A segunda corrente, muito mais
radical, era o Socialismo Científico, ou o Comunismo, sistematizado por
Karl Marx e Friedrich Engels no Manifesto Comunista de 1848. Essa vertente
enxergava a história humana unicamente através de uma lente: a luta de classes
movida por fatores econômicos. Para eles, a única solução era a destruição
absoluta da propriedade privada e a tomada violenta do poder pelo proletariado.
Allan Kardec conhecia
profundamente essas teorias. Ele leu os jornais da época, acompanhou as
tentativas de colônias socialistas e debateu esses temas na Revista Espírita.
E a conclusão da Doutrina é categórica: o Espiritismo afasta o comunismo
radical e o socialismo materialista. Mas por quê? São três razões centrais.
Primeiro: A Rejeição
Absoluta ao Materialismo Histórico. O comunismo marxista afirma que a
economia comanda tudo; que a matéria e a estrutura financeira determinam a
mente do homem. A Ciência Espírita inverte e amplia completamente essa
lógica. Para o Espiritismo, o Espírito é a causa pré-existente e primária.
A matéria e as condições sociais são apenas os efeitos, as ferramentas de
aprendizado necessárias para a evolução da alma.
Em O que é o Espiritismo,
Kardec define a Doutrina como a antítese direta do materialismo,
classificando a negação da alma como uma verdadeira "chaga social"
que destrói a esperança humana. Não dá para alinhar uma filosofia que diz
que o homem é só matéria com uma Doutrina que prova, por fatos e lógica, que a
alma é imortal.
A segunda razão é A
Inviabilidade da Comunhão Forçada de Bens. Na Revista Espírita,
Kardec analisou o fracasso das colônias que tentavam impor a igualdade material
por decreto. Ele argumentou que tentar dividir todas as riquezas igualmente,
sem que as pessoas tenham se transformado moralmente por dentro, é uma ilusão. Sem
a reforma íntima, a comunhão de bens degenera rapidamente na preguiça
coletiva, na inveja ou na lei do mais esperto, porque o ser humano atual ainda
é movido pelo orgulho e pelo egoísmo.
E a terceira razão é A
Defesa da Propriedade Privada e a Recusa da Violência. Se você abrir O
Livro dos Espíritos, nas questões 880 a 892, os Espíritos Superiores são
muito claros: o direito de propriedade é legítimo e natural, desde
que seja fruto do trabalho e do esforço honesto de cada um. O comunismo
prega a abolição desse direito e, frequentemente, o uso da força revolucionária
violenta para derrubar o sistema. Kardec condena categoricamente essas
revoluções violentas. Ele as chama de "paroxismos dolorosos" que
destroem coisas e vidas, mas que são incapazes de regenerar o homem por dentro.
Para a Doutrina, a verdadeira
transformação social é moral, gradual e precisa nascer da evolução voluntária
das consciências, nunca da imposição de uma ditadura ou do derramamento de
sangue. Em síntese, para Kardec, a
Esquerda materialista erra profundamente ao tentar curar as dores e os
males da alma humana usando apenas receitas econômicas e materiais. O
remédio espírita não é uma revolução de fora para dentro imposta pelo Estado,
mas a regeneração íntima do homem. Da qual, naturalmente, a justiça social
e a fraternidade serão consequências lógicas e duradouras. Por isso, o
Espiritismo afasta com vigor a Esquerda materialista e revolucionária.
"Ah, então o Espiritismo
é de Direita! Resolvido!" Calma, não tire conclusões
precipitadas. É justamente aqui que a pesquisa fica ainda mais interessante e
surpreendente. Porque se o Espiritismo não compactua com o materialismo da
Esquerda, ele ataca com a mesma força os pilares que sustentam a Direita conservadora
e os donos do poder. Quais são os motivos desse enfrentamento contra a Direita,
com as conexões impressionantes sobre o que nós vivemos nos dias de hoje?
Agora que nós desconstruímos o
mito de que o Espiritismo apoia a Esquerda materialista, nós precisamos olhar
com a mesma coragem e o mesmo vigor para o outro lado do plenário. Como nós
vimos lá na origem dos termos, a Direita nasceu para defender os Lordes, o
clero absolutista e a manutenção estática do sistema a qualquer custo. E quando
nós vasculhamos os fundamentos contidos em O Livro dos Espíritos e nos
arquivos da Revista Espírita, nós descobrimos que a Doutrina desmorona
as premissas estruturais da Direita conservadora por meio de quatro pilares
irrefutáveis.
O primeiro pilar é a condenação
absoluta dos privilégios de nascença e de casta. A Direita aristocrática
original justificava a desigualdade social como se ela fosse uma "vontade
divina" ou um direito consanguíneo intocável. Sabe aquela ideia de que "uns
nasceram para mandar e outros para obedecer"? Pois bem, na Lei de
Igualdade de O Livro dos Espíritos, os Espíritos Superiores são
categóricos: todos os homens são criados rigorosamente iguais perante Deus. Nós
somos submetidos às mesmas leis naturais e físicas.
E Kardec vai além. Na Revista
Espírita de dezembro de 1858, ele escreve com todas as letras que as
distinções sociais baseadas em vantagens corporais ou mundanas são fundadas
unicamente no orgulho, nas castas e — prestem bem atenção nisso — nos "estúpidos
preconceitos étnicos". O professor Rivail afirma textualmente que a
Doutrina faz desaparecer essas barreiras ao restituir a igualdade de direitos e
promover a abolição dos privilégios de raças. Para as elites de Direita da
época, ouvir que um nobre e um trabalhador tinham o mesmo valor espiritual era
um absurdo completo.
O segundo pilar é o que mais
incomoda o pensamento conservador atual: o ataque à ideia de que a riqueza é
um direito absoluto e sem deveres. Enquanto os Lordes da época defendiam
que podiam fazer o que quisessem com suas posses, sem nenhuma contrapartida
social — um discurso que, sejamos honestos, é repetido hoje por quem defende a
concentração desenfreada de riquezas, o sistema financeiro intocável e
bilionários acima das leis —, o Espiritismo desconstrói completamente essa
noção de propriedade intocável.
Nas questões 808 a 813 de O
Livro dos Espíritos, a Doutrina nos ensina que a miséria extrema e as
disparidades sociais absurdas são obras do egoísmo humano, e não de Deus. A
riqueza nunca é vista na Doutrina como um privilégio de deleite, mas sim como
uma prova de extrema responsabilidade moral. O milionário, o banqueiro, o
grande empresário são apenas depositários temporários de um recurso que
pertence a Deus.
Se o detentor do capital
acumula por puro egoísmo e nega o bem-estar ou o fruto justo do trabalho ao seu
semelhante (olha a discussão da escala 6x1 aí, gente, que retira o
descanso digno do trabalhador para maximizar o lucro a qualquer custo) é uma
violação direta da Lei de Justiça, Amor e Caridade. E esse princípio não está
escondido não; ele está amplamente detalhado e endossado de forma moral no
capítulo dezesseis de O Evangelho segundo o Espiritismo: "Não se
pode servir a Deus e a Mamon". Mamon é a riqueza amoral, e o
Espiritismo nos alerta que se render a ela é o caminho da falência espiritual.
O terceiro pilar é a defesa
intransigente do progresso. A essência profunda do pensamento conservador é
o imobilismo social, aquela velha máxima de que "as coisas sempre foram
assim e devem continuar como estão". O Espiritismo estraçalha essa
barreira ao estabelecer o Progresso como uma Lei Natural irreprimível. Na
questão 783 de O Livro dos Espíritos, os benfeitores espirituais
determinam que "o homem não pode conservar-se indefinidamente na
ignorância". E no comentário dessa mesma questão, Kardec escreve um
dos alertas mais fortes da obra: ele explica que as ideias de progresso vão se
infiltrando pouco a pouco, e quando as instituições e as forças políticas
tentam represar essa evolução para manter seus privilégios de Direita, as
revoluções morais e sociais estouram de forma inevitável para desmoronar o
passado. O Espiritismo rejeita o imobilismo e caminha de mãos dadas com a
evolução das leis civis e das condições humanas (é progresso e nada de
conservar).
E o quarto pilar é a
emancipação da mulher e o ensino laico. A Direita francesa daquela época
era profundamente clerical, ou seja, andava de mãos dadas com o clero da Igreja
Católica para defender a submissão da mulher e manter o controle dogmático e
com medo das escolas. E convenhamos: a Direita atual prega exatamente a
mesma coisa, a única diferença é que hoje eles incluíram mais religiões nesse
mesmo balaio para tentar controlar o comportamento social e o debate público. O
Espiritismo rompeu radicalmente com esse bloco religioso e conservador. Nas
questões 817 a 822 de O Livro dos Espíritos, a Doutrina prova que a
mulher e o homem possuem direitos rigorosamente iguais perante Deus e afirma
que a submissão feminina é uma opressão fruto da força bruta, e não da
natureza.
Além disso, Kardec, como o
brilhante pedagogo e discípulo de Pestalozzi que era, defendeu ao longo de toda
a Revista Espírita e na sua Viagem Espírita em 1862 a instrução
universal, pública e laica. Uma educação voltada para a moralização, mas
totalmente desatada dos dogmas opressores das penas eternas e do medo do
inferno, que o clero e as elites usavam como cabresto político para dominar a
população.
Por essa síntese, fica claro o
seguinte: se a Esquerda erra pelo materialismo, a Direita erra pelo egoísmo,
pelo privilégio de casta e pelo desejo de paralisar a marcha da humanidade. E
se a direita daquela época pedia o poder absoluto do Rei, a direita de hoje
pensa, expressa e age exatamente do mesmo modo, mudando apenas o personagem: em
vez do monarca, muitos hoje clamam e pedem por um ditador. O Espiritismo
confronta tudo isso. A Doutrina se coloca ao lado do oprimido, do
trabalhador, da justiça distributiva e do progresso social. Allan Kardec
não aceitou o assento com os "Comuns" revolucionários de Karl Marx,
mas ele jamais compartilhou a mesa com os "Lordes" reacionários que
sangravam o povo para manter suas coroas.
Então, afinal de contas, onde
fica o Espiritismo nesse tabuleiro político? Para entender o verdadeiro lugar
da Doutrina, nós temos que lembrar que a Filosofia Espírita nasceu como parte
do Espiritualismo Racional do século dezenove, uma corrente
respeitadíssima que era ensinada nos Liceus e na própria Sorbonne, em Paris. Essa
linha de pensamento buscava justamente uma terceira via filosófica: ela
combatia o niilismo e o materialismo da ciência nascente, mas sem retroceder ao
fanatismo, à superstição e ao controle social exercido pelas igrejas
tradicionais.
Kardec aplicou esse método
científico e racional à sociologia espírita. Para ele, o grande
problema do mundo não estava puramente na estrutura econômica das fábricas —
como dizia a Esquerda —, e muito menos na preservação das tradições e
hierarquias de poder — como defendia a Direita. Para o Espiritismo, o motor do
mundo é o grau de evolução moral do homem.
Tanto o capitalismo
desenfreado quanto o comunismo estatal falharam e vão continuar falhando se
forem operados por homens egoístas, orgulhosos e vaidosos. Você pode mudar
as leis de um país cem vezes, mas se o caráter dos cidadãos e dos governantes
continuar corrompido, a opressão apenas mudará de mãos.
Disso decorre a nossa máxima
mais profunda: a fraternidade verdadeira e a justiça social só serão alcançadas
por meio da regeneração íntima, da qual as reformas externas serão um
subproduto natural, justo e duradouro. O remédio espírita não é a revolução
socioeconômica imposta de fora para dentro pela força, e nem o imobilismo
conservador que protege os poderosos. O Espiritismo propõe uma reforma de
dentro para fora.
Portanto, tentar puxar Kardec
para a Esquerda ou para a Direita é reduzir uma ciência cósmica e imortal às
paixões miúdas de um planeta de provas e expiações. O Espiritismo não cabe
nesses rótulos humanos. Ele está acima deles, convidando cada um de nós a
sermos os verdadeiros agentes de progresso através da nossa própria
transformação moral.
Uberaba-MG, 03 de novembro de
2026
Beto Ramos
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