ESTUDO DA DOUTRINA ESPÍRITA – O LIVRO DOS ESPÍRITOS – LIVRO SEGUNDO – MUNDO ESPÍRITA OU DOS ESPÍRITOS – PARTE 70




- CAPÍTULO VIII - 

- EMANCIPAÇÃO DA ALMA -

V - SONAMBULISMO



O noctambulismo ou hipnofrenose é chamado de sonambulismo em cuja fase do sono ocorrem os sonhos mais vívidos e se caracteriza por movimentos rápidos dos olhos e atividade cerebral similar àquela em que se passam horas em que se está acordado; denomina-se distúrbio comportamental do sono quando as características anteriores não se apresentam. É, em ambos os casos, um transtorno comportamental do sono (parassonia), durante o qual a pessoa pode desenvolver habilidades motoras simples ou complexas.

A Revista Espírita, no texto de apresentação em sua capa traz o sonambulismo com um dos objetos de estudo e investigação que se relacionam com o Espiritismo, trazendo a seguinte redação:

"REVISTA ESPÍRITA - Jornal de Estudos Psicológicos - Contém: O relato das manifestações materiais ou inteligentes dos Espíritos, aparições, evocações, etc., bem como todas as notícias relativas ao Espiritismo. – O ensino dos Espíritos sobre as coisas do mundo visível e do invisível; sobre as ciências, a moral, a imortalidade da alma, a natureza do homem e o seu futuro. – A história do Espiritismo na Antiguidade; suas relações com o magnetismo e com o sonambulismo; a explicação das lendas e das crenças populares, da mitologia de todos os povos, etc".

Na RE Out./1858 depreende-se que o sonambulismo é um estado onde o magnetizado, privado do uso dos sentidos, vê, ouve, fala e responde a todas as perguntas que lhe são dirigidas (está referindo-se ao sonambulismo provocado).

Em O Livro dos Espíritos o Codificador, inspirado pelos Espíritos Superiores apresentou extenso RESUMO TEÓRICO DO SONAMBULISMO, DO ÊXTASE E DA DUPLA VISTA. Considerou o sonambulismo natural para se ater nas questões envolvendo o sonambulismo magnético, produzido artificialmente.

E, nesse sentido, Allan Kardec afirma que "para o Espiritismo, o sonambulismo é mais que um fenômeno fisiológico, é uma luz projetada sobre a Psicologia. É que nele se pode estudar a alma, porque é nele que ela se mostra a descoberto." (Q-455, LE). Para mais informações acerca desse tema, remetemos o leitor à questão mencionada.

Voltemos, agora, às indagações feitas por Allan Kardec aos Espíritos sobre o assunto sonambulismo nas questões 425 a 438 da Obra em estudo. Daquilo que nos é possível alcançar de momento, vamos observar o que segue.

Quando estamos acordados o Espírito usa o corpo, mas, está sensível à influência da matéria. O corpo é instrumento de manifestação do Espírito no mundo material, e, para isso, recebe sensações (impressões transmitidas pelos sentidos físicos). Entre ambos há uma relação de reciprocidade. 

Durante o sono é comum o Espírito e o corpo estarem em repouso. Porém, no caso do sonambulismo o corpo está sob o domínio do Espírito. E, de certa forma, não está recebendo impressões do mundo exterior. Trata-se de uma espécie de estado cataléptico. Ao que parece, no sonambulismo, por algum motivo, o Espírito precisa realizar algo com o corpo, e o usa como são usados os objetos materiais nos fenômenos de manifestações físicas.

É importante acusarmos essa última frase, pois, auxilia-nos a compreender o processo da manifestação do corpo. Na questão 427 o Codificador questiona acerca do fluído magnético e sua natureza, onde responde-se que se trata do fluído vital, eletricidade animalizada, que são modificações do fluído universal. Portanto, remetemos o leitor para o Capítulo IV do Livro dos Médiuns, no qual o tema é a TEORIA DAS MANIFESTAÇÕES FÍSICAS. Nas questões 72 a 81 do Livro dos Médiuns vamos aprender como é que os Espíritos se manifestam quando movem objetos e promovem ruídos, entre outros. Esse conhecimento é importante para que se compreenda que o Espírito, possuindo natureza diversa da matéria, não se manifestará pelo mesmo processo. Apesar de haver algumas semelhanças, quando observados apenas os efeitos, é necessário sempre conhecer a causa da manifestação, cujo processo é totalmente diverso da nossa compreensão. E é esse processo que o Codificador usa para analogia de como ocorre a ação do Espírito sobre o corpo no caso dos sonâmbulos.

O fenômeno tanto pode ser provocado quanto ocorrer naturalmente. O primeiro é denominado sonambulismo magnético. Mas, ambos são a mesma coisa. Constatou-se, também, que os sonâmbulos não se recordam de nada que ocorreu durante o processo. Nas experiências com sonâmbulos verificou-se que se trata de um fenômeno caracterizado pela clarividência, sem o concurso dos órgãos comuns da visão.

Destarte, o Codificador afirmou que a causa da clarividência, do sonambulismo magnético e do sonambulismo natural é a mesma: um atributo da alma (faculdade inerente ao ser incorpóreo que existe em nós).

Neste item V do Cap. VIII do Livro Segundo de O Livro dos Espíritos, que trata da Emancipação da Alma, ora em estudo, aprendemos que o sonâmbulo (indivíduo encarnado) não vê durante o sonambulismo através do corpo. Ao contrário, o Espírito vê fora do corpo. Para o Espírito a matéria não oferece nenhum obstáculo, pois, ele a atravessa livremente.

Apesar da clarividência, atributo do Espírito, este não sabe tudo e nem tudo vê ou conhece. Possui as imperfeições como os demais e, ligado à matéria, não goza de todas as suas faculdades de Espírito. Há uma finalidade útil e séria para essa faculdade, cujo objetivo não é aprender o que não deve saber. Portanto, sonâmbulos não podem dizer tudo. Mas, há aqueles que apresentam conhecimentos ignorados quando está acordado, às vezes acima de sua capacidade intelectual. Isto ocorre porque é como se o Espírito houvesse despertado da letargia (véu que encobre o patrimônio intelectual adquirido em outras encarnações) e, por instantes, recuperado o que aprendeu na existência precedente. Todavia, essa lembrança se dá de maneira incompleta. Passada a "crise sonambúlica" a lembrança se apaga e ele volta à obscuridade.

Finalmente, o Espírito pode ver à distância, o que ocorre quando se transporta durante o sonambulismo, e, essa visão se dá do ponto onde se encontra o Espírito, pois, é ele quem vê e não o corpo. Sua maior ou menor clarividência depende tanto da organização física como da natureza do Espírito encarnado. Sendo assim, as faculdades experimentadas pelo sonâmbulo não são totalmente as mesmas do Espírito após a morte em razão da influência da matéria que ainda encontra-se ligado.

O sonâmbulo vê outros Espíritos. Essa visão ocorre para a maioria que vê muito bem, dependendo do grau e da natureza de lucidez de cada um. Todavia, espantado com a natureza dos Espíritos, acontece de não compreender do que se trata e toma-os por encarnados. Quanto às sensações que o corpo sente e que está relacionada com o lugar para onde o Espírito se transportou, estas ocorrem em razão da ligação entre ambos. O laço que os une é o responsável pelas impressões (perispírito).

Por fim, é importante que o leitor estude a Revista Espírita, o Livro dos Médiuns e o Livro dos Espíritos para que tenha melhor e maior compreensão acerca desse e de outros assuntos.

Estude e viva!

A HABITAÇÃO DOS ESPÍRITOS INFERIORES

Sabemos, conforme a Escala Espírita, que os Espíritos encarnados e desencarnados classificam-se segundo o grau de desenvolvimento, as qualidades adquiridas e imperfeições de que ainda não se livraram.
Em 1858 Allan Kardec abordou esse tema na Revista Espírita. Naquela oportunidade o Codificador não havia inserido a Décima Classe dos Espíritos componentes da Terceira Ordem da Escala, que trata das caraterísticas predominantes dos Espíritos Inferiores. Contudo, a Terceira ordem é composta pelos Espíritos Impuros, Levianos, Pseudossábios, Neutros e os Batedores e Perturbadores. (LE, Q-100/106).
Segue abaixo, conforme seus estudos psicológicos, uma dissertação de Allan Kardec sobre o tema. Esse texto encontra-se na RE-Mar/1858 onde o leitor poderá estudar e melhor refletir sobre o assunto.
Afirma o Codificador:
“O mundo dos Espíritos compõe-se das almas de todos os humanos desta Terra e de outras esferas, despojadas dos liames corporais; do mesmo modo, todos os humanos são animados por Espíritos neles encarnados.
Há, pois, solidariedade entre esses dois mundos: os homens terão as qualidades e as imperfeições dos Espíritos aos quais estão unidos. Os Espíritos serão mais ou menos bons ou maus, conforme os progressos que hajam feito durante sua existência corporal. Estas poucas palavras resumem toda a doutrina.
Como os atos dos homens são o produto de seu livre-arbítrio, carregam a marca da perfeição ou da imperfeição do Espírito que os provoca. Ser-nos-á, pois, muito fácil fazer uma ideia do estado moral de um mundo qualquer, conforme a natureza dos Espíritos que o habitam; de algum modo poderíamos descrever sua legislação, traçar o quadro de seus costumes, de seus usos e de suas relações sociais.
Suponhamos, então, um globo habitado exclusivamente por Espíritos da Nona Classe, por Espíritos Impuros, e para lá nos transportemos pelo pensamento.
Nele veremos todas as paixões liberadas e sem freio; o estado moral no mais baixo grau de embrutecimento; a vida animal em toda a sua brutalidade; nada de laços sociais, porquanto cada um só vive e age por si e para satisfazer seus grosseiros apetites; o egoísmo ali reina como soberano absoluto, arrastando no seu cortejo o ódio, a inveja, o ciúme, a cupidez e o assassínio*.
Passemos agora a uma outra esfera, onde se encontram Espíritos de todas as classes da terceira ordem: Espíritos impuros, levianos, pseudo-sábios, neutros. Sabemos que o mal predomina em todas as classes dessa ordem; porém, sem ter o pensamento do bem, o do mal decresce à medida que se afastam da última classe.
O egoísmo é sempre o móvel principal das ações, mas os costumes são mais suaves, a inteligência mais desenvolvida; o mal aí está um pouco disfarçado, enfeitado, dissimulado.
Essas próprias qualidades dão origem a outro defeito: o orgulho, pois as classes mais elevadas são suficientemente esclarecidas para terem consciência de sua superioridade, mas não o bastante para compreenderem aquilo que lhes falta; daí sua tendência à escravização das classes inferiores ou das raças mais fracas, que mantêm sob o seu jugo.
Não possuindo o sentimento do bem, só têm o instinto do eu, pondo a inteligência em proveito da satisfação das paixões. Se numa tal sociedade dominar o elemento impuro, este aniquilará o outro; caso contrário, os menos maus procurarão destruir seus adversários; em todos os casos haverá luta, luta sangrenta, de extermínio, porque são dois elementos que têm interesses opostos.
Para proteger os bens e as pessoas, serão necessárias leis; mas essas leis serão ditadas pelo interesse pessoal e não pela justiça; é o forte que as fará, em detrimento do fraco.
Esperamos que o presente texto possa servir para uma série de reflexões, mormente em face dos tormentosos acontecimentos que ocorrem no planeta Terra e em nosso País. Onde chegaremos com as dissidências causadas em razão de nossas imperfeições? Que faremos para que a vitória seja do bem?
Sentimo-nos na obrigação de advertir que para bem se compreender a Doutrina Espírita, um estudo sério das Revistas Espíritas é sempre atual e necessário. Todos os temas que foram objeto da Codificação encontram-se devidamente investigados na Revista Espírita.
(*) Verifique a notícia que consta na Obra Francisco de Assis, ditada pelo Espírito Miramez a João Nunes Maia, no capítulo "Uma Cidade Estranha", onde há uma referência à cidade denominada "A Cruzada".

A GÊNESE - por São Luís

Esta obra vem na hora certa, na medida em que a doutrina está hoje bem estabelecida do ponto de vista moral e religioso. Seja qual for a direção que tome de agora em diante, tem precedentes muito arraigados no coração dos adeptos, para que ninguém possa temer que ela se desvie de seu caminho.

O que importava satisfazer antes de tudo, eram as aspirações da alma; era suprir o vazio deixado pela dúvida nas almas vacilantes em sua fé. Esta primeira missão hoje está cumprida. O Espiritismo entra atualmente em uma nova fase; ao atributo de consolador, alia o de instrutor e diretor do espírito, em ciência e em filosofia, como em moralidade. A caridade, sua base inabalável, dele fez o laço das almas ternas; a Ciência, a solidariedade, a progressão, o espírito liberal dele farão o traço de união das almas fortes.

Conquistou os corações que amam com armas de doçura; hoje viril, é às inteligências viris que se dirige. Materialistas, positivistas, todos os que, por um motivo qualquer, se afastaram de uma espiritualidade cujas imperfeições suas inteligências lhes mostravam, nele vão encontrar novos alimentos para sua insaciabilidade.

A Ciência é sua senhora, mas uma descoberta chama outra, e o homem avança sem cessar com ela, de desejo em desejo, sem encontrar completa satisfação. É que o Espírito também tem suas necessidades; é que a alma mais ateísta tem aspirações secretas, inconfessadas, e que essas aspirações reclamam seu alimento.

A religião, antagonista da Ciência, respondia pelo mistério a todas as questões da filosofia céptica. Ela violava as leis da Natureza e as adaptava à sua fantasia, para daí extrair uma explicação incoerente de seus ensinamentos. Vós, ao contrário, vos sacrificais à Ciência; aceitais todos os seus ensinamentos sem exceção e lhe abris horizontes que ela supunha intransponíveis.

Tal será o efeito desta nova obra; não poderá senão assegurar mais os fundamentos da crença espírita nos corações que já a possuem, e fará dar um passo à frente para a unidade a todos os dissidentes, à exceção, entretanto, dos que o são por interesse ou por amor próprio; esses o vêem com despeito sobre bases cada vez mais inabaláveis, que os lançam para trás e os rechaçam na sombra.

Só havia pouco ou nenhum terreno comum onde se pudessem encontrar. Hoje, o materialismo vos acotovela por toda parte, porque estando em seu terreno, não estareis menos no vosso, e ele não poderá fazer outra coisa senão aprender a conhecer os hóspedes que lhe traz a filosofia espírita. É um instrumento de duplo efeito: uma sapa, uma mina que ainda derruba algumas ruínas do passado, uma colher de pedreiro que edifica para o futuro.

A questão de origem que se prende à Gênese é para todos uma questão apaixonada. Um livro escrito sobre esta matéria deve, em conseqüência, interessar a todos os espíritos sérios. Por esse livro, como vos disse, o Espiritismo entra numa nova fase e esta preparará as vias da fase que mais tarde se abrirá, porque cada coisa deve vir a seu tempo. Antecipar o momento propício é tão prejudicial quanto deixá-lo escapar.

Paris, 18 de dezembro de 1867 – Médium: Sr. Desliens (RE FEV/1868).