Seguidores

sexta-feira, 1 de outubro de 2021

O MOVIMENTO POLÍTICO-SOCIAL L.G.B.T.Q.I.+ E O ESPIRITISMO

    

 

 

“Aqueles que retornam nem sempre são outros Espíritos, mas, frequentemente, os mesmos Espíritos, pensando e sentido de outra forma”.

(Kardec, A Gênese, Cap. 18, item 33 - 1868).

Já se ouviu e, também, se escreveu que o Espiritismo transcende a política. Que seu organizador não se envolveu com a mesma e que, por fim, se trata de um assunto proibido no meio. A priori, seria lícito perquirir: a referência à palavra 'política' alude a qual dos seus significados? Todos? Alguns?

No sentido figurado, usa-se o termo para designar a habilidade no relacionar-se com os outros, tendo em vista a obtenção de resultados desejados. Noutro campo, usando uma organização ou associação, busca-se exercer influência na opinião pública.

Em um belo texto assinado por Allan Kardec, cujo título é A Geração Nova, contido em A Gênese, capítulo 18, item 26 e seguintes, é possível depreender que "para que os seres humanos sejam felizes sobre a Terra é preciso que ela seja povoada apenas por bons Espíritos, encarnados e desencarnados, que só queiram o bem". Justifica essa afirmação o fato de que habitantes do planeta que fazem o mal pelo mal atraem discórdia e confusão, constituindo-se em obstáculos para o progresso.

Segundo aquele texto, na época atual o planeta é palco do encontro entre elementos de duas gerações que se embaralham. Cada qual se distingue por características que lhes são próprias. Suas ideias e pontos de vistas estão em oposição, resultado da natureza das disposições morais, sobretudo as intuitivas e inatas, o que facilita distinguir à qual das duas pertence cada indivíduo.

A nova geração pertence ao número dos que fundarão uma sociedade na era do progresso moral. O que justifica afirmar que se trata da presença do incontestável grau de adiantamento anterior. Não se trata de Espíritos superiores, mas, daqueles que progrediram e estão dispostos a assimilar todas as ideias progressivas. Estes indivíduos estão aptos a ser a mola propulsora do movimento regenerador.

Voltando, pois, ao campo da política, é possível perceber que o conteúdo do texto mencionado nos conduz àquele sentido da expressão 'política' que designa a habilidade de relacionar-se com os outros, tendo em vista a obtenção de resultados desejados. O encontro entre gerações tem a finalidade de proporcionar aos retardatários a oportunidade de se nutrirem das ideias progressivas.

Quem são os indivíduos que prejudicam a marcha do progresso? Os atrasados são os revoltados contra Deus, que recusam a reconhecer qualquer poder superior à humanidade, cuja propensão instintiva é às paixões degradantes, aos sentimentos antifraternos do egoísmo, do orgulho, do apego por tudo que seja material, isto é, do conjunto de vícios dos quais o indivíduo precisa se depurar.

Assim, é necessário que o verdadeiro Espírita submeta ao crivo da razão toda e qualquer questão que envolva o princípio espírita da evolução contínua e perpétua do Espírito. Segundo o Livro dos Espíritos, durante a encarnação, os Espíritos são submetidos à Lei Moral da Vida em Sociedade.

Pela harmonia do ensino dos Espíritos admitimos que o aprendizado mais importante da vida em sociedade é que os seres humanos se entendam (Q. 812.a), o que irá ocorrer quando praticarem a lei de justiça. Importante notar o aspecto político contido na resposta à questão seguinte (Q. 813):

"A sociedade é a responsável pelas privações e misérias experimentadas por seus componentes, uma vez que é seu dever velar pela educação moral de seus membros, a fim de que o critério de julgamento das pessoas não seja falseado e que possa aninquilar toda e qualquer tendência perniciosa (adaptado)".

Falamos, pois, de educação moral como responsabilidade social. Eis que, então, pedimos venia para algo refletir sobre o movimento político-social LGBTQIA+ e o espiritismo. Qual é a contribuição da Doutrina Espírita relacionado a esse tema? Existem informações relevantes para se compartilhar com o movimento espírita? Nossa resposta é afirmativa.

Primeiramente, é preciso definir moral segundo o espiritismo. Trata-se da regra da boa conduta, da distinção entre o bem e o mal, na observação da lei de Deus. Mas, quem define não pode complicar e, nesse sentido, vamos para a definição de boa conduta. Conduzir-se bem é agir, fazendo tudo com objetivo de promover o bem para o bem de todos. É nisso e não em outra coisa que consiste observar a Lei de Deus (Q. 629, O Livro dos Espíritos).

Observamos aqui que não há inclusão de outro critério para a definição da moral que não o acima descrito. O bem é tudo que está de acordo com as Leis Divinas e o mal é tudo o que dela se afasta. Solicitamos que o (a) leitor (a) afaste todo preconceito quanto a análise do que é bem e mal.

É sempre racional promover um raciocínio considerando o conjunto de informações e não aspectos isolados para sustentar uma ideia preconcebida. Vale a pena recordar que a finalidade da encarção dos Espíritos é chegar à perfeição (Q. 132, OLE).

Nesse processo o Espírito precisa experimentar toda situação que lhe proporcione adquirir conhecimento. Para enfrentar esse aprendizado é necessário encarnar em corpos físicos e, por meio deles, cumprir daquele ponto de vista, o que foi desinado para o seu progresso.

Partimos, assim, da compreensão de que a experiência nos corpos físicos proprociona evolução para o Espírito. Chegamos no ponto, então, de conciliar as informações, o que faremos resumidamente:

  1. O Espírito reencarna e toma um corpo físico para, daquele ponto de vista, adquir conhecimentos e progredir;
  2. Sujeito às influências do meio e vivendo em sociedade, cabe à sociedade o dever de proporcionar educação moral para o Espírito com o objetivo de dotá-lo das informações necessárias para realizar julgamentos com conhecimento de causa e não se desviar do objetivo: progresso;
  3. A educação moral consiste em lhe proporcionar condições para distinguir o bem e o mal e para se conduzir fazendo o bem que resulte no bem geral, ocasião em que cumpre as Leis Divinas;

Sabendo que o Espírito toma um corpo físico em cada reencarnação para beneficiar-se a si mesmo com o progresso e para fazer o bem para a coletividade, percebemos certo mal-estar em indivíduos que compõem o movimento espírita quanto à pessoas que pertencem à comunidade LGBTQIA+.

Vamos, suscintamente e sem nos arvorar a 'doutores da lei' trazer algumas informações sobre esse movimento político-social. LGBTQIA+ é o movimento político e social que defende a diversidade e busca representatividade e reconhecimento de direitos para os indivíduos que o compõem. Entenda o que significa cada letra da sigla que designa esse movimento:

L = Lésbicas: indica mulheres que sentem atração afetiva/sexual por outras mulheres.

G = Gays: indica homens que sentem atração afetiva/sexual por outros homens.

B = Bissexuais: diz respeito a homens e mulheres que sentem atração afetivo/sexual tanto por outros homens quanto por outras mulheres.

T = Transexuais: a transexualidade não se relaciona com a orientação sexual, mas se refere à identidade de gênero. Dessa forma, corresponde às pessoas que não se identificam com o gênero atribuído em seu nascimento. As travestis também são incluídas neste grupo. Porém, apesar de se identificarem com a identidade feminina constituem um terceiro gênero.

Q = Queer: refere-se a pessoas que transitam entre as noções de gênero, onde a orientação sexual e identidade de gênero não resultam da funcionalidade biológica, mas de uma construção social.

I = Intersexo: trata do indivíduo que está entre o feminino e o masculino. Nesse caso suas combinações biológicas e desenvolvimento corporal (cromossomos, genitais, hormônios, etc), não se enquadram na norma binária (masculino ou feminino).

Assexual: designam os que não sentem atração sexual por outras pessoas, independente do gênero. Se apresenta em diferentes níveis e é comum que não vejam as relações sexuais como prioridade.

+ : O + é utilizado para incluir outros grupos e variações de sexualidade e gênero.

O pensamento fundante do movimento político-social LGBTQIA+ é que suas pautas sejam respeitadas pela sociedade, pois, cada grupo ou indivíduo que o compõe sofre diferentes tipos de violência por não se adequar ao que foi objeto de normatização como "normal" para a sociedade. Porém, será que há um conceito do que seja normal, ou um preconceito com o que não se compreende e que se julga anormal? Muitas coisas são anormais apenas em aparência, pois, os que julgam não possuem a inteligência perfeita daquilo que sobre o que emite juízo.

NIETZCHE (2004, pg. 19) afirmou que "o juízo 'bom' não provem daqueles aos quais se faz o 'bem'. Foram os 'bons' mesmos, isto é, os nobres, poderosos, superiores em posição e pensamento, que sentiram e estabeleceram a si e a seus atos como bons, ou seja, de primeira ordem, em oposição a tudo que era baixo, de pensamento baixo, vulgar e plebreu. Desse pathos da distância é que eles tomaram para si o direito de criar valores, cunhar nomes para os valores que lhes importava a utilidade".

Vimos, portanto, que todo aquele que se refera ao vocábulo 'deficiência de caráter' está impregnado por toda uma construção e influência de costume, cultura, hábitos e tradições daqueles que, julgaram o que consideravam bom ou ruim. O problema é que usaram a si mesmo como régua. Em suma, pessoas pertencentes à nobreza denominaram os seus atos como 'atos de nobreza', 'atos nobres', que se tornou sinônimo de 'bom'. A partir disto se construíu o 'conjunto de valores morais da sociedade', que foram tomados como 'valores morais da socidade'.

Destarte, o que a humanidade atribui valor como algo bom ou superior ao que denomina mau, traz em si a promoção do foi julgado útil e que exerceu ou exerce influência no ser humano. Mas, a verdade é que o valor desses valores não é questionado de modo crítico. Ou seja, o que consideramos bom é realmente bom ou não passa de conveções utilitárias?

Recordamos o dever da sociedade segundo O Livro dos Espíritos no que respeita à educação moral de todos os indivíduos reencarnados. Partiremos da seguinte premissa: Espírito tem sexo? Os Espíritos não tem sexo porque não se reproduzem, são criados por Deus. A reprodução ocorre entre as espécies através do macho e da fêmea (Sanson, Espírito Feliz, O Céu e o Inferno, cap. 1).

Os Espíritos, para se fazerem reconhecer nas comunicações, se apresentam sob a forma que os conhecemos em vida objetivando não causar perturbação. Essas características não são perpétuas, se apagam pouco a pouco quando, então, subsistem os caracteres essencialmente morais. Esses caracteres materiais (masculino e feminino) são menos persistentes quanto mais desmaterializados (desapegados) os Espíritos, isto é, quanto mais elevados na hierarquia dos seres. (Rev. Espírita, Junho de 1863, Considerações sobre o Espírito batedor de Carcassone).

Quanto mais o pensamento desprende da matéria, mais essas características são menos pronunciadas. Além disto, após a morte, quanto mais inferior é o Espírito, mais apresentará os mesmos gostos e inclinações que possuia quando vivo (Rev. Espírita, Junho de 1863, Considerações sobre o Espírito batedor de Carcassone).

As almas ou Espíritos não possuindo sexo, as afeições que os unem nada tem de carnal, portanto, são mais duradouras, porque o fundamento que os une é a simpatia real, não aquelas atrações puramente carnais subordinadas às vicissitudes da matéria. (Rev. Espírita, Janeiro de 1866, As Mulheres tem Alma).

O corpo físico é instrumento para que o Espírito mantenha contato com o mundo físico e adquira o progresso possível no mundo que habita. Ali realiza atividades que o auxilia no avanço intelectual e moral. E, a cada encarnação o Espírito chega mais desenvolvido, com novas ideias e conhecimentos adquiridos nas existências anteriores (Rev. Espírita, Janeiro de 1866, As Mulheres tem Alma).

Os sexos só existem no organismo para fins de reprodução dos seres. Os sexos seriam inuteis no mundo espiritual, pois, os Espíritos não se reproduzem. Portanto, é para adquirir conhecimentos e progredir que os Espíritos encarnam nos diferentes sexos. O que foi homem pode renascer mulher e vice-versa. (Rev. Espírita, Janeiro de 1866, As Mulheres tem Alma).

O objetivo é realizar os deveres (aptidões) em cada uma dessas posições e aproveitar todo o conhecimento que a prova permitir. O Espírito encarnado sofre a influência do organismo (habitos condicionados, repetidos) e, assim, o seu caráter se modifica conforme as circunstâncias, pois, ele não resiste às necessidades e exigências orgânicas. Esta influência não se apaga imediatamente após a morte (Rev. Espírita, Janeiro de 1866, As Mulheres tem Alma).

Eis aqui um dos pontos capitais para a prova de que o preconceito com as pessoas que constituem a comunidade LGBTQIA+ não se sustentam e é a demonstração patente de que os preconceituosos são Espíritos inferiores:

O Espírito não perde instantaneamente os gostos e hábitos terrenos. O Espírito que percorreu uma série de existências no mesmo sexo conservará no estado de Espírito o caráter de homem ou de mulher, cuja marca fica impressionada em sua mente pelos sentidos. Chegado a certo grau de adiantamento e desmaterialização é que a influência da matéria se apaga completamente, inclusive o caráter dos sexos. (Rev. Espírita, Janeiro de 1866, As Mulheres tem Alma).

A influência da vida corporal repercute na vida espiritual e vice-versa. Portanto, em nova encarnação o Espírito trará o caráter e inclinações que tinha como Espírito. Ao mudar de sexo, sob essa impressão e em sua nova encarnação poderá conservar gostos, inclinações e caráter inerentes ao sexo que acaba de deixar. Assim, se explicam certas anomalias aparentes que se notam no caráter de certos homens ou mulheres (Rev. Espírita, Janeiro de 1866, As Mulheres tem Alma).

Provando que não há Espíritos homens e Espíritos mulheres, que todos tem a mesma essência, a mesma origem e o mesmo destino, [o Espiritismo] consagra a igualdade de direitos. A grande Lei da Reencarnação vem, além disso, sancionar este princípio - Observação de Allan Kardec (Revista Espírita, Abril de 1868, Dissertações Espíritas, Instrução das Mulheres).

Vimos aqui que, ao menos em meio Espírita, não se justifica o preconceito com indivíduos que reencarnaram e fazem parte do movimento político-social LGBTQIA+. Ad primus, porque quem for preconceituoso nesse sentido não é um verdadeiro Espírita. Secundum, desconhece profundamente o Ensino dos Espíritos, pois, sexo é só um ponto dos vários que enfrentamos na senda evolutiva do Espírito.

SLIDES PARA QUE VOCÊ TRABALHE ESSE TEMA JUNTO AO SEU GRUPO, CASA OU ASSOCIAÇÃO: baixe aqui!


Uberaba-MG, 01 de Outubro de 2021.
Beto Ramos

2 comentários:

  1. Com todas essas informações, que estão nas obras da Doutrina Espírita, é ignorância não querer dar ao outro o direito de Escolher a sua opção sexual.
    O verdadeiro ser humano de bem não se baseia em sua escolha sexual, e sim no modo de proceder mediante a sociedade e consigo mesmo.

    Muito bom esse artigo, e é preciso debater em torno de temas tão sensíveis como esse.

    Parabéns e muito obrigado.

    ResponderExcluir
  2. Grande Lauro, obrigado pelas suas considerações sobe o artigo, a conduta humana e o conteúdo da doutrina dos Espíritos. Abraços.

    ResponderExcluir

Comente. Debatemos sem disputar.

DESTAQUE DA SEMANA

O ATO DO DEVER MORAL E A CARIDADE DESINTERESSADA

Quem não tem dúvidas, certamente, é porque não estuda. E, por falar nisto, vejamos quantas perguntas estão presentes apenas em uma proposta ...

MAIS VISITADAS