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quinta-feira, 18 de novembro de 2021

PERISPÍRITO, TRADUÇÕES E PESQUISAS EM FONTES PRIMÁRIAS.

 



(O uso, nas pesquisas, de traduções para o português sem confirmação nas fontes originais para confirmar a idoneidade das traduções).

INTRODUÇÃO

É do conhecimento geral que as obras fundamentais do Espiritismo foram escritas na língua francesa, especialmente, entre as décadas de 1850 e 1870. Portanto, todos os estudiosos que se debruçam sobre essas obras para fins de estudo e pesquisa, devem considerar adequadamente o material que estão utilizando.

Quando não buscam fundar suas investigações nos originais, devem evitar atitudes ingênuas, tais como considerar todas as traduções iguais e transposições fiéis do francês para o português.

Também, não se deve ler tais obras ao “pé da letra” sem estudar o universo em que ela surgiu. Crer que a tradução que possui está livre de erros e imprecisões, esta completamente clara e que utiliza palavras adequadas e não condicionadas pelas diferenças da língua original e da língua de chegada é atitude fundamentalista.

 

PRIMEIRA PARTE – NECESSIDADE DE CONFIRMAÇÃO – FONTES PRIMÁRIAS

Um exemplo interessante é a palavra castigo, muito utilizada pelos tradutores quando vertem do francês para o português. Nesse caso, vamos encontrar no original a questão 263, onde:

“L'Esprit fait-il son choix immédiatement après la mort? Non, plusieurs croient à l'éternité des peines; on vous l'a dit: c'est un châtiment”.

José Herculano Pires, na 70ª Edição, 02/2013, de O Livro dos Espíritos traduz a palavra châtiment como “castigo”. O mesmo autor, na mesma edição da tradução, verte a palavra frappe-t-il, também, como “castigo”.

Interessante notar que o significado para a primeira é punição e para a segunda temos atingir. Não é interessante pensar que se a ideia fosse, realmente, de “castigo”, o Codificador, como pedagogo não iria deixar isso bem claro. Mas, pesquisando o original o que temos é a dúvida quando comparamos com a ideia trazida pelo tradutor. Aqui não se discute a intenção do tradutor, a idoneidade do tradutor, a índole do tradutor, mas, a harmonia da obra codificada.

Mais sobre essas expressões francesas e suas possíveis traduções para o português você encontra nesse outro artigo aqui.

Recordamos que o centro da teoria espírita é a AUTONOMIA MORAL DO ESPÍRITO, fugindo das teorias que, refutando o livre arbítrio, afirmavam a MORAL HETERÔNOMA. Neste sentido, é importante refutar a palavra “castigo”, voltar ao sentido original e harmonizar o conjunto para que a tradução não perca a essência.

Ocorre o mesmo com outras teorias que temos encontrado. Nosso objetivo aqui não apontar que A ou B estejam errados. O importante é chamar a atenção para essas questões que se mostram de importância elevada para a compreensão correta da teoria espírita. Tudo no sentido de que por qualquer motivo sejam criadas teorias que não estão presentes na base fundamental do edifício espírita.


SEGUNDA PARTE – O PROBLEMA DAS TRADUÇÕES

Um grave problema com traduções é referente aos “textos mais fáceis” e os “textos mais difíceis”. Nesse caso faz-se a escolha pela comparação de duas ou mais traduções. Contudo, a escolha pelo mais fácil pode empobrecer a riqueza do texto original e até desvirtuá-lo[1]. É importante ter em mente o objetivo da publicação. Há as traduções que respeitam a forma linguística do original, mantêm repetições e redundâncias, busca na língua de chegada o melhor vocábulo pra traduzir o original, mesmo que seja uma palavra pouco usada.

O problema está nas que objetivam uma compreensão imediata. Essa tradução elimina tensões, repetições e redundâncias, altera estruturas frasais, usa vocabulário mais simples e, por vezes, supre palavras “faltantes”. Ora, eis aí um problema capital: quem é o autor original dessa obra?

Não queremos com isso afirmar que as traduções não têm o seu valor. Sim, todas as traduções possuem o seu valor, mas, é fato que NÃO SÃO TODAS IGUAIS. Umas servem a um tipo de estudo mais raso enquanto outras servem para reflexões mais profundas. A teoria espírita, enquanto objeto de tradução, não deve se prestar a atingir grupos populares, mas colocar à disposição de todos os leitores o manancial que emanou dos Espíritos superiores para que todos possam ter, para sua análise, a fidelidade do ensino original.

Recordando a questão de que duas palavras foram traduzidas para significar a mesma coisa (como apontado acima), quando se estuda profundamente uma tradução é importante saber que não existe: “é a mesma coisa com palavras diferentes”.

Se as palavras NÃO são as mesmas, já NÃO é mais a mesma coisa. Toda tradução reflete as opções ideológicas do tradutor, o que induz o leitor a uma ou outra interpretação do texto[2].

 

TERCEIRA PARTE – O PERISPÍRITO

O perispírito ainda suscita em muitos espíritas uma infinidade de dúvidas e, até mesmo, afirmações de muitos que chegaram a conclusões com fundamentos externos à Teoria Espírita. Recordamos que em se tratando de fundamentos doutrinários do Espiritismo qualquer informação recolhida fora das Obras Fundamentais deve passar pelo crivo da razão, bom senso e lógica, ou seja, Controle Universal do Ensino dos Espíritos, reclamando a concordância e sansão da maioria dos Espíritos (vários médiuns, Espíritos e classes, várias localidades, espontaneidade na comunicação e ausência de contato entre médiuns).

O mesmo não ocorre com as informações que estão em conformidade com o Ensino dos Espíritos Superiores que sancionaram, por maioria, os princípios e postulados espíritas cuja metodologia de recepção, escreve Allan Kardec, ocorreu de acordo com o item II da Introdução ao Evangelho Segundo o Espiritismo.

Não é incomum verificar afirmações de que o perispírito modela o corpo físico do Espírito reencarnante. Neste sentido, para fins de investigação, recordamos os itens 10 e 11 do Capítulo XI – Gênese Espiritual – cujo título é União do Princípio Espiritual e da Matéria. Com o objetivo de que Espírito pudesse agir e assim desenvolver suas faculdades, sendo a matéria o objeto de sua atividade, foi necessário que o mundo material lhe fosse lugar para sua habitação. Ao contrário de experimentar a união com a pedra rígida, Deus facultou aos Espíritos o uso de corpos organizados, flexíveis e capazes de receber todos os impulsos de sua vontade, prestando-se a todos os seus movimentos. Foi desta maneira que Kardec afirmou:

“O corpo é, ao mesmo tempo, invólucro e instrumento do Espírito e, à medida que este adquire novas aptidões, reveste-se de um corpo apropriado ao novo gênero de trabalho que deve realizar, como se dá a um operário ferramentas menos grosseiras à medida que ele seja capaz de fazer uma obra mais delicada” [3].

Não há dúvidas de que o corpo, envoltório do Espírito, é o seu instrumento de manifestação no mundo material ou, como mostra a citação acima, é o seu instrumento de trabalho. Mas, fica a indagação: se todas as coisas estão sujeitas à Lei do Progresso como se elabora o corpo físico pelo qual o Espírito irá se manifestar? Então, o Codificador vai direto ao ponto e afirma:

“Para ser mais exato, é preciso dizer que é o próprio Espírito que elabora seu envoltório e o adapta às suas novas necessidades. Ele aperfeiçoa, desenvolve e completa seu organismo à medida que experimenta a necessidade de manifestar novas faculdades. Em uma palavra, ele o molda de acordo com sua inteligência[4].

É ainda nesse mesmo texto que Allan Kardec afirmará que Deus fornece os materiais e o Espírito o usa, o que explica o estilo especial que o caráter do Espírito imprime aos traços da fisionomia e as maneiras do corpo. Interessante salientar que o Espírito, para o seu adiantamento, usa suas faculdades que são rudimentares no princípio e se recobre de um envoltório corporal adequado ao seu estado de infância intelectual, deixando-o para se revestir de outro à medida que suas forças vão aumentando. Mas, é no item 17, Encarnação dos Espíritos, que a obra A Gênese trará muitas informações importantes que devemos nos apropriar para esse ensaio.

“Por sua essência espiritual, o Espírito é um ser indefinido, abstrato, que não pode ter uma atuação direta sobre a matéria, sendo-lhe necessário um intermediário, que é o envoltório fluídico, que faz, de certo modo, parte integrante do Espírito, revestimento semimaterial, isto é, pertence à matéria por sua origem e à espiritualidade por sua natureza etérea” [5].

Interessa notar que Kardec afirma que é o perispírito que torna o Espírito (um ser abstrato), um ser concreto, definido e perceptível pelo pensamento, apto a atuar sobre a matéria tangível. Daí se conclui que o Espírito age sobre a matéria por intermédio do perispírito. Importa não deixar escapar uma explicação, também, muito importante, na qual Kardec ensina que o perispírito:

“Durante sua união com o corpo, é o veículo do pensamento do Espírito para transmitir movimento às diferentes partes do organismo, as quais atuam sob o impulso de sua vontade, e para repercutir no Espírito as sensações produzidas pelos agentes externos. Têm por fios condutores os nervos, como no telégrafo o fluído elétrico tem por condutor o fio metálico” [6].

Passamos, agora, para o ponto crucial de nosso ensaio em que vamos citar o item 18 da Obra A Gênese – Capítulo XI – Gênese Espiritual, cujas informações são de grande valia para nossa compreensão acerca da questão: o perispírito modela o corpo físico? Ora, como mencionamos no princípio, não é incomum ver afirmações dessa natureza. Está ela de acordo com a Codificação? Vejamos:

“Quando o Espírito tem de encarnar em um corpo humano em vias de formação, um laço fluídico, que é apenas uma expansão de seu perispírito, liga-se ao embrião, para o qual ele se acha atraído por uma força irresistível desde o momento da concepção” [7].

Necessário atentar para a informação: o corpo humano está em “vias de formação” e o embrião atrai o Espírito por força irresistível para esse. O corpo, nesse caso, atrai o Espírito e a ligação ocorre pelo seu veículo de pensamento que transmite movimento para as diferentes partes do organismo em formação.


Há mais para analisarmos, uma vez que Kardec afirma que “á medida que o embrião se desenvolve, o laço se estreita” [8]. Portanto, o embrião está SE desenvolvendo pelas leis que regem a matéria (temos aí a questão relativa ao patrimônio genético e à biologia). Mas, como se dá o processo de união entre ambos? Vejamos no texto:

Sob a influência do princípio vital material do embrião, o perispírito, que possui certas propriedades da matéria, se une molécula por molécula com o corpo que se forma” [9].

Importante ressaltar antes de prosseguir que é necessário compreender que, ao tempo de Kardec, não era amplamente divulgado o fato de o corpo físico se constituir de células, como unidades fundamentais da vida pluricelular (conf. nota 129 da tradução de A Gênese ora utilizada – p. 228). Então, é nesse sentido que se deve compreender tal ligação.

Ora, aqui temos um manancial importante para meditarmos, pois, é o próprio Codificador quem vai dizer: “por isso, podemos dizer que o Espírito, por intermédio do Perispírito, se enraíza nesse embrião, como uma planta na terra. Quando o embrião está inteiramente desenvolvido, a união está completa, e ele nasce para a vida exterior” [10]

Destarte, cumpre recordar que o perispírito tem origem material e natureza espiritual, mas, desprovido de vida, pois, como ensina o Codificador, trata-se de “veículo de transmissão do pensamento do Espírito para transmitir movimento às diferentes partes do organismo, as quais atuam sob o impulso de sua vontade[11]”. Em se tratando de modelagem do corpo, nos parece que Kardec foi enfático em declarar que essa ação é do Espírito sobre a matéria. Seu pensamento é transmitido pelo perispírito. 

Para nossa análise é compreensível que o caráter do Espírito possa imprimir um estilo todo especial aos traços da fisionomia e às maneiras do corpo, conforme ensina Allan Kardec. Todavia, é possível permanecer a dúvida: como isso ocorre se o Espírito sofre perturbação ao iniciar o processo reencarnatório por meio da ligação feita pelo laço fluídico que o une ao corpo? Essa questão é prontamente respondida pelo Codificador, senão vejamos:

“Preso ao laço fluídico que o une ao embrião, a perturbação se apodera dele, aumentando à medida que o laço se estreita e, nos últimos momentos, o Espírito perde a consciência de si mesmo, não sendo, jamais, testemunha consciente de seu nascimento" [12].

Temos a seguinte situação: o feto atrai o Espírito que a ele se liga na concepção pelo laço fluídico. Se, é por esse laço que o Espírito manifesta a vontade para o corpo através de seu pensamento, lícito será avaliar que do mesmo modo em que o caráter do Espírito imprime um estilo especial aos traços da fisionomia e as maneiras do corpo, envia, também, pelo pensamento todas as informações que serão usadas pelos corpúsculos celulares que estão formando o corpo físico e tal processo não é lento ou demorado, pois, para os Espíritos o pensamento é tudo. 

Não é plausível confundir perturbação com a total perda de consciência, e nem esquecer que o primeiro ensinamento quanto esse tema em que se reporta o Codificador é que é o Espírito quem elabora seu organismo, isto é, ele molda o corpo físico (item 11, Capítulo XI – Gênese Espiritual – A Gênese). Neste sentido, plausível considerar que ele o faz por intermédio do veículo de seu pensamento: o perispírito. Mas, esse nada faz por “vontade própria”, é instrumento semimaterial criado pelo Espírito, retirado do fluido cósmico, destrutível e trocado pelo Espírito à medida que evolui. 

Mas, teríamos nós outras fontes na Codificação onde buscar corroborar com a impossibilidade de ocorrer o contrário, isto é, o perispírito moldar o corpo físico sem a vontade manifesta pelo pensamento do Espírito? Eis que surge na Tradução da Revista Espírita de Maio de 1858 uma explicação que pode confundir o leitor. Vejamos:

“Mas essa matéria sutil não tem a tenacidade nem a rigidez da matéria compacta do corpo; é se assim nos podemos exprimir, flexível e expansível; por isso a forma que toma, embora calcada sobre a do corpo, não é absoluta” [13].

Vejamos o significado da expressão calcada, do verbo calcar. Segundo nosso Dicionário Escolar da Língua Portuguesa LUFT da editora ática (2005), temos:

CALCAR: pisar com os pés; esmagar; comprimir; Decalcar, modelar;

Pensamos que essa expressão pode confundir e levar o leitor a considerar que o perispírito modela o corpo físico, uma vez que é possível encontrar essa expressão em nosso vernáculo conforme demonstrado. Contudo, neste ensaio buscou-se no original em Francês da Revue Spirite Mai 1858 vamos encontrar o seguinte:

c'est pourquoi la forme qu'elle prend, bien que calquée sur celle du corps, n'est pas absolue;”

Que, para nossa surpresa, vamos encontrar uma informação que faz toda a diferença para nossa compreensão. Vejamos:


“é por isso que a forma que assume, embora modelada na do corpo, não é absoluta”.

Chama nossa atenção a tradução que nos induz pensar que o perispírito é apertado sobre a forma do corpo, modelando-o, quando, na tradução ora apresentada temos que a forma perispiritual é modelada na forma do corpo físico.

É assim que nós entendemos neste ensaio, pois, há uma sensível diferença entre “apertar a forma perispiritual sobre a forma do corpo” (que induziu a ideia de ‘perispírito modelando o corpo´)  com “a forma perispiritual é modelada na forma do corpo”.

Corrobora com nossa teoria, segundo o até aqui apresentado, uma Tabeleau de l’avie Spirite (Quadro da Vida Espírita) onde o Codificador nos apresenta a seguinte afirmação:


“mais ce corps n’a pointe nos organes et ne peut ressentir toutes nos impressions”.

Tradução:

“este corpo não possui nossos órgãos e não pode sentir todas as nossas impressões”.

Ora, se fosse, digamos assim, o modelador do corpo físico, seria lícito raciocinar que seriam “impressos” todos os órgãos também. Ocorre que a frase anterior a essa ora mencionada elucida, a nosso ver, o conjunto de indagações, uma vez que no original temos:

“L'enveloppe semi-matérielle de l'Esprit constitue une sorte de corps d'une forme définie, limitée et analogue à la nôtre”

Onde:

“o invólucro semimaterial do Espírito constitui uma espécie de corpo de forma definida e limitada, análoga à nossa”.

Segundo o mesmo dicionário anteriormente citado vamos encontrar para análogo (a), expressão relativa à analogia, o seguinte significado: semelhança entre duas coisas sob certos aspectos. Análogo não é, sem qualquer dúvida, a mesma coisa. A analogia citada é quanto a se tratar de uma forma definida e limitada, contudo, o corpo físico é de matéria rígida enquanto o perispírito é flexível e expansível.


Não é razoável pensar que perispírito e corpo físico se prestam ao mesmo papel, tal qual é a ideia de que ambos possuam órgãos. Construímos nosso pensamento sobre três aspectos:

a) Deus teria criado uma dessas formas inutilmente e Deus nada cria que não tenha propósito;

b) Qual a explicação racional para existência dos mesmos órgãos para manifestação do Espírito na matéria e no mundo espiritual?

c) Acaso exista explicação plausível para a indagação anterior, Allan Kardec errou ao afirmar que a matéria tinha que ser o objeto da atividade do Espírito para o desenvolvimento de suas faculdades e, por isso, teria que habitá-la usando corpos organizados para sua manifestação e ação. Simplesmente porque por meio do perispírito o ser faria tudo que faz na matéria.

Além do mais, se uma possível resposta advier da hipótese de que o Espírito usa o perispírito para sua manifestação no mundo espiritual e lá age e manifesta tal qual no material, volta-se à letra “c” acima, pois, perde-se todo o sentido de que o mundo material é o lugar para desenvolvimento do Espírito, vez que o faria diretamente no mundo espiritual.

Em O Livro dos Espíritos, na Questão 93, há o seguinte ensinamento: o Espírito é envolvido por uma substância vaporosa para a visão dos encarnados ao mesmo tempo em que é grosseira para visão dos Espíritos. Na Questão 95 aprendemos que o perispírito possui a forma determinada e perceptível que o Espírito, por seu arbítrio, lhe atribuir.

Neste caso, se cada Espírito atribui, por sua livre escolha, a forma que desejar ao seu perispírito, não faz sentido pretendermos que o perispírito possua órgãos tal qual o corpo físico, o qual possui rigidez para sustentar sua organização densa.

Para demonstrar que equívocos podem ser cometidos sem uma análise profunda trazemos à colação uma pergunta e sua resposta constante da RE/JUL/1858, edição da FEB (em PDF), pg. 279, onde o diálogo se desenvolve como abaixo:

7. Foi-nos dito ultimamente que os Espíritos não têm olhos; ora, se essa imagem é a reprodução do perispírito, como foi possível reproduzir os órgãos da visão?

Resp. – O perispírito não é o Espírito; a aparência, ou perispírito tem olhos, mas o Espírito não os possui. Já vos disse bem, falando do perispírito, que eu estava vivo.

Perceba que se afirma na questão que foi dito que os Espíritos não possuem órgãos da visão e, discutindo sobre uma imagem fotográfica do perispírito, questionou-se como a imagem apresentava ditos órgãos. O Espírito esclarece que o Espírito não possui órgãos, que a imagem era do perispírito e que “este tem olhos”.

Se usarmos apenas essa fonte sem qualquer questionamento é possível pensar que o perispírito possui órgãos. Mas, o Espírito comunicante faz importante afirmação: “Já vos disse bem, falando do perispírito, que eu estava vivo”.

Indo a fundo na resposta, também, extraímos a afirmação do Espírito de que a aparência, ou perispírito tem olhos”. Nesse caso, é importante recordar o significado de aparência que é: a configuração exterior de algo; aquilo que se mostra imediatamente; aspecto; exterioridade enganosa; falso indício; ilusão; dimensão superficial, exterior, ilusória da realidade, que corresponde, no âmbito da cognição humana, a todos os obstáculos que impedem a percepção plena da verdade.

Portanto, o Espírito não fez uma afirmação peremptória de que há órgãos no perispírito, mas, uma aparência, isto é, uma ilusão, um aspecto ou dimensão superficial. E a consideração que se faz é, exatamente, pela afirmação peremptória do Espírito: “Já vos disse bem, falando do perispírito, que eu estava vivo”.

Ora, nada mais é que a aparência do perispírito era do corpo físico e não do Espírito. Neste sentido, a aparência exterior tem aspecto de órgãos, mas, não é um órgão. Na Revista Espírita de Dezembro de 1858 (FEB, PDF, pg. 503), falando sobre sensações nos Espíritos, Allan Kardec escreve o seguinte:

“Outro tanto não acontece com os de perispírito mais denso, os quais percebem os nossos sons e odores, não, porém, apenas por uma parte limitada de suas individualidades, conforme lhes sucedia quando vivos. Pode-se dizer que, neles, as vibrações moleculares se fazem sentir em todo o ser e lhes chegam assim ao sensorium commune, que é o próprio Espírito, embora de modo diverso e talvez, também, dando uma impressão diferente, o que modifica a percepção”.

Ora, a razão nos diz que o Codificador, quando explica que as percepções do Espírito não ocorrem por meio de uma parte limitada de sua individualidade, como acontece com o corpo físico que possui tais partes individualizadas (ouvir, ver, sentir, etc.), traça uma diferença capital entre perispírito e corpo físico e suas respectivas constituições.

Produzido como ensaio, não se objetivou neste artigo esgotar o tema, mas, provocar no leitor a vocação para a pesquisa.


Uberaba-MG, 18/11/2021
Beto Ramos.
 

[1] DIAS DA SILVA, Cássio Murilo. Leia a Bíblia como literatura. São Paulo: Edições Loyola, 2007.

[2] DIAS DA SILVA, Cássio Murilo. Leia a Bíblia como literatura. São Paulo: Edições Loyola, 2007.

[3] KARDEC, Allan. A Gênese. (cf. a 1ª edição francesa de 1868). Trad. Carlos de Brito Imbassay. 2ª Edição. FEAL: Guarulhos-SP, 2018, pg. 224/225.

[4] KARDEC, Allan. A Gênese. (cf. a 1ª edição francesa de 1868). Trad. Carlos de Brito Imbassay. 2ª Edição. FEAL: Guarulhos-SP, 2018, pg. 225.

[5] KARDEC, Allan. A Gênese. (cf. a 1ª edição francesa de 1868). Trad. Carlos de Brito Imbassay. 2ª Edição. FEAL: Guarulhos-SP, 2018, pg. 227.

[6] Idem, pg. 228.

[7] Ibidem.

[8] KARDEC, Allan. A Gênese. (cf. a 1ª edição francesa de 1868). Trad. Carlos de Brito Imbassay. 2ª Edição. FEAL: Guarulhos-SP, 2018, pg. 228.

[9] Idem.

[10] Ibidem.

[11] Ibidem.

[12] Idem, pg. 229.

[13] Revista Espírita. Maio de 1858. Teoria das Manifestações físicas. Tradução de Evandro Noleto Bezerra. FEB (em PDF), pg. 194/195.

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